As distopias em cinema sobre o fim (provisório, I must say) da humanidade partem muitas vezes da premissa de uma guerra ou acidente nucleares, um fim prático e bombástico. Mais silenciosos no início, mas igualmente frequentes, e mais tarde preenchidos de chinfrineira zombie são os filmes em que a humanidade é dizimada por vírus. Por isso acredito que nesta quarentena, entre melancólicas noitadas de ténis, à luz antiga dos raios catóditos, muita gente se tenha posto a questão de como seria o mundo se o novo vírus coroado limpasse a área sobrando apenas aquele ou aquela que punham ociosa, ansiosa, misantrópica ou esperançosamente a hipótese. A minha resposta a esta questão está dada há muito: na altura em que vi o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith, perguntei-me se era mesmo necessário ter sobrevivido também o cão.
(Quando mais tarde entrou em cena um bando de zombies sedento de sangue, encolhi os ombros, resignado: a humanidade tinha sobrevivido. De novo.)
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quinta-feira, 28 de maio de 2020
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
S.T.T.L.
Os
anais da família registam que o tio, bebedor regular e fumador inveterado,
cortou de um dia para o outro com esses vícios e deixou de jogar às cartas. Não
voltou à taberna, meras três ou quatro portas abaixo da sua barbearia (que
ficava no rés-do-chão da nossa casa comum). Abdicou de quase todos os contactos
sociais fora da família. Saía de casa apenas para exercer a sua profissão (para
o que lhe bastava descer as escadas) ou passear no parque termal ali ao lado ou
no monte por trás do bairro, tutelando os sobrinhos na descoberta da Natureza.
Adoecia se, por qualquer razão que não conseguia evitar, tinha de acompanhar a
família para um almoço fora ou uma cerimónia qualquer das que naqueles tempos
se cumpriam. Nunca casou, embora se lhe conhecessem histórias de antigas
namoradas.
O
tio partiu há uns dias, ele que parecia estar há quatro décadas a preparar a
partida. Nos primeiros tempos da sua vida abstémia e sem tabaco, pelos quarenta,
ainda se juntava de quando em quando a alguns conterrâneos para umas partidas
de malhas ou para o jogo do bicho — que na nossa rua se jogava em frente à
taberna, na faixa de terra entre o passeio e a estrada, atirando moedas como miniaturas
de malhas para acertar numa rolha a fazer de pino, sobre a qual os jogadores
tinham colocado outras moedas, que geralmente perdiam para o tio, ou assim o
recordamos todos. Há uma certa unanimidade, não só na família, quando se trata
de recordar a veia talentosa do tio no que tocava a jogos populares e de cartas.
Também se recordam episódios de força, como quando segurou um boi pelos cornos
para proteger alguém da investida e ali ficou longamente a aguentar firme o
bicho até vir o dono ou chegarem cordas ou qualquer outra forma de alívio.
Na
barbearia tinha a sua freguesia assídua (não só do bairro), que não raro fazia
esperar ou obrigava a voltar mais tarde, porque havia em certas épocas
prioridades na sua vida, como ir aos frades e aos tortulhos no Outono, aos
ninhos na Primavera e aos bosques sem grandes justificações no Verão. (No
Inverno preferia quase sempre ficar em casa, porque um problema de varizes o
impedia de calçar botas ou sapatos capazes de enfrentar a chuva e a lama.) Na
maior parte das vezes levava para estas excursões algum ou vários dos seus seis
sobrinhos. Julgo que nos levou a todos em diferentes fases, de acordo com a
cronologia do crescimento. Não era exactamente um Thoreau, embora se
encaminhasse a passos largos para um ermitério interior e tivesse pela Natureza
uma paixão que hoje se diria de ecologista. Aos ninhos dava-lhe prazer
assinalá-los e mostrar-no-los sem contudo perturbar os seus habitantes. Não
apreciava as práticas ainda vigentes de atirar pedras com fisgas a pássaros ou
subir às árvores para roubar ou destruir os ovos. Como um batedor navajo ou um David Attenborough sem
caqui, punha o dedo sobre os lábios a pedir silêncio ou interrompia a marcha
pousando-nos a mão comprida sobre o ombro e apontava o ninho ou a ave que
gostaria que víssemos. Na direcção que os seus olhos ou o seu dedo indicavam
estavam também frequentemente arbustos e árvores, cujos nomes nos ensinava, no
meu caso com fraco proveito, não porque não estivesse a fruir as suas lições
(estava, avidamente).
A
sua visão de lince e experiente era lendária, tanto para descobrir os ninhos mais
intrincados quanto para lobrigar as rocas
mais camufladas no húmus. Apanhava os cogumelos enfiando um dedo na terra para
os tirar pela raiz e não gostava que se remexesse demasiado o solo, tanto por
preocupação com o ecossistema como porque não queria que outros descobrissem
onde tinha ele apanhados os seus troféus micológicos.
De
resto, o seu crescente desejo era passar pelos dias sem que os outros o
descobrissem. Misantropia, sem dúvida, um obstinado desinteresse pela vida
mundana, exceptuando o gosto por acompanhar, quase só à distância, por
interpostas ondas hertzianas, os resultados desportivos. Se alguém o queria
apanhar numa interacção social, teria de ser através do futebol (ou do hóquei e
do ciclismo, quando o país era mais diverso). Para uma dessas conversas ainda
era capaz de parar na rua ao cruzar-se com alguém, ou de receber na barbearia
quem, não vindo para se aparar, viesse pelo menos para comentar os resultados
do Sporting.
Nos
anos oitenta, talvez a década final do funcionamento pleno da barbearia, os
seus clientes mais assíduos eram desafortunadamente os sobrinhos mais novos,
que ali iam e voltavam precisamente porque eram os anos oitenta e havia cortes de
cabelo a experimentar, penteados a retocar (além de barbas a despontar), tudo
de forma gratuita, na dupla acepção do termo. Nem sequer se podia dizer que os
sobrinhos pagavam com os recados que lhe faziam (sobretudo à farmácia, para lhe
tratar a hipocondria), já que os recados não implicavam devolver o troco.
A
paciência que o tio tinha com os sobrinhos naquela época contrastava com a ira
que irrompia do seu corpo alto, vergado e lastimoso sempre que um conhecido ou
um vizinho cruzava a entrada da nossa casa. Quando alguém batia à porta, ele retirava-se
para a zona íntima, fechando sucessivas portas atrás de si com violência ou
passeando pelos corredores a vociferar, consciente de que as suas imprecações
eram ouvidas pelos visitantes. Se as visitas se repetiam por muitos dias, o tio
adoecia e durante uma semana encostava-se pelos cantos, carente da atenção que
havia sido repartida pelos visitantes, lamentando-se no seu quarto com
queixumes miudinhos, ais suspirados. Na nossa crueldade de crianças, fingíamos então
afastarmo-nos para logo notarmos que, sem audiência, ele cessava de carpir — e lá
entrávamos pelo quarto dentro com a glória vã ou desnecessária e talvez egoísta
de lhe termos descoberto o fingimento.
Com
o decorrer das décadas, misantropia e hipocondria agravaram-se, e em
determinadas circunstâncias isso exacerbou o mau-feitio, fez dele por vezes uma
pessoa difícil.
Mas
os anais da família também registam que eu, em criança, padecendo talvez de
sonambulismo, ia por vezes deitar-me na cama do tio a meio da noite. Encontrava
ali, estou certo, um porto acolhedor onde me abrigar dos pesadelos ou procurava
o regresso ao promissor mundo de aventuras que as suas histórias de nanar
tinham entreaberto antes nessa noite. Na altura era demasiado novo para
escolher as palavras e formar as ideias, caso contrário teria percebido que o
tio era então o meu segundo pai.
Sit tibi terra levis.
Sit tibi terra levis.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Dhafer Youssef ou a reconciliação da espécie
Há três anos havia lua cheia e Dhafer Youssef actuava em Sines (lembras-te?).
Nós estávamos no mesmo paralelo, mas não mesmo mesmo meridiano — e contudo
parámos o carro na berma alentejana, saímos para o calor da noite com o rádio
no máximo e dançámos no alcatrão, inquietando a bicheza que esbugalhava um olho
de cada vez nos prumos das cercas ao redor. Apesar da proximidade mediterrânica
e do Sete Sóis, Sete Luas, que também já visitáramos e havíamos de visitar, não
nos ocorria exactamente a celebração de um melting
pot musical ou cultural, pensávamos apenas no prazer de ser Verão e estarmos
vivos a Sul. Mas calhava de Youssef — o tunisino, o francês, às vezes vienense,
o terráqueo, em suma — ser versado na Teoria das Cordas e explicar o Universo
dedilhando o seu oud ou tensionando incrivelmente
as fibras da laringe. Por isso havia Harmonia e o jazz era o seu esperanto — e
nós estávamos afinal sintonizados com o Cosmos, reconciliados com a espécie. Tínhamos
bebido um copo ou outro, é certo.
domingo, 28 de dezembro de 2014
Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia
Descem a vereda do parque em passo lento de sábado à tarde. Vistos de
costas, não se percebe se são namorados, se irmãos ou mãe e filho (ela parece
mais velha), mas essa dúvida é ainda mais espúria quando os vemos posar para a
fotografia: o que importa se o que encenam para a câmara é amor romântico ou
ternura familiar? No simulacro dos sentimentos é indiferente o tipo de
parentesco.
Encostam muito a cara, o braço dele sobre os ombros dela, ela como tenaz
a cingir-lhe os rins. Podem estar só a espremer-se para caberem no
enquadramento (acontece até a estranhos em bodas, ombrear promiscuamente a
mando do fotógrafo), e a expressão feliz que de súbito lhes ilumina o rosto pode
ser a apenas a resposta instintiva, culturalmente determinada, a um imaginado «olh’ó
passarinho». Regressarem com igual rapidez às caras sisudas anteriores parece
corroborar esta ideia de que presenciamos uma farsa inocente, ritual.
Mas nada impede a especulação literária. A vida não impede geralmente a
especulação literária. Fotografias sorridentes são instrumento que as pessoas usam
para acreditarem, a coberto dos anos ou da distância, que em certo dia ou local
foram felizes. A foto como alibi para a auto-estima ou o optimismo. Talvez
alguém naquele casal conhecesse já as faculdades paliativas da nostalgia.
(Folhear um álbum é seguir uma prescrição antiga de alienação e tirar
fotografias com este móbil poderia ser judicialmente censurado como plantar
cannabis. Mesmo que apenas para consumo próprio.)
quarta-feira, 16 de abril de 2014
To send you my love
No Verão passado frequentei com certa assiduidade, para livros e vinho,
a esplanada ocidental da Club House de Vidago. Tanto porque sou patologicamente
avesso à humanidade (embora às vezes disfarce) e o sítio é pouco concorrido,
como porque tenho romântica nostalgia de um passado aristocrata que não posso
reivindicar e por tantas razões abomino.
Para lá das minhas bizarrias (e das minhas frases barrocas), locais
como o Parque de Vidago agradam-me também porque providenciam um contacto
delicado com a Natureza.
Por todas estas razões, aceito partilhar com poucas pessoas os momentos
que ali passo, e a memória de cada tarde é preciosa.
Se hoje evoco este cenário é porque, por razões particulares, recordei uma
tarde em que ali passeei com a mais nova das minhas irmãs. Não era a primeira
vez que íamos juntos esquecer o mundo e a vida, mas naquela tarde de 2013 deambulámos
descalços pelo relvado suave e levemente húmido dos buracos 17 ou 18. Talvez o
momento panteísta apenas tenha sido intenso para mim, mas eu gostaria que
aqueles minutos de felicidade tivessem tomado também o espírito da minha irmã
deixando marcas duradouras. Que o meu amor e o meu orgulho nela, já que não
saem por palavras, tivessem descido aos meus pés e ao solo como a corrente eléctrica
das trovoadas e subido depois pelos dela ao seu coração. Se isso não aconteceu
então, que esses sentimentos façam agora o caminho dos meus dedos para a
ligação ADSL, do meu ecrã para o dela. Que de mim se aproveite alguma energia
para fortalecer (ainda mais) a dela. A tua, irmã.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Gel, mães e filhos (2)
Como a mãe do post anterior,
talvez a minha não se tivesse importado de me comprar gel recebendo instruções por
telemóvel, se houvesse telemóveis quando eu era adolescente e se a mercearia do
bairro —
onde, família grande, nos abastecíamos a crédito para o mês, num vaivém de
sacos que parecia diligência de Noé em véspera de dilúvio —, se a mercearia do
bairro, dizia, tivesse a variedade actual de produtos e nós dinheiro para eles.
Sou dos que depois usaram gel e o largaram tarde, quando já corria o
risco de ser tomado por deputado de um partido do arco da governação. Não fui
deputado e a minha mãe decerto teve disso orgulho: não gostava que andássemos
em más companhias.
A verdade é que, tirando o gel, nada mais me qualificava para deputado.
Desde novo fui educado para ser humilde e sem ambições materiais. De cada vez
que mostrava alguma ambição (uma bola, uma miniatura de tractor, algodão doce
num arraial, um Fruto Real ou uma Schweppes, Sugus) recebia a resposta que hoje
nos dá o Governo: não há dinheiro. Mas ao contrário do Governo, a minha mãe não
o dizia com maldade de velha megera. Doce como era, dizia-o à superfície por
vezes com rispidez pré-25 de Abril, mas com um coração de generoso
revolucionário partido no peito. Ela que enfrentava a dureza da época como um
Salgueiro Maia quotidiano (um que por vezes derramasse umas lágrimas).
Não lhe deve ter sido fácil negar-nos permanentemente os desejos. E tinha
de o fazer em várias frentes (éramos seis, com interesses que variavam entre os
dos que usavam chupeta e os dos que começavam a fumar). Mas depois ficou
certamente contente por ver que os seus meninos lá medraram como Deus deixou —
mantendo-se fiéis à linhagem: empenhados e humildes.
Por (triste) sorte, já não se dará conta de que neste país a humildade e o
empenho se continuam a pagar mal e a castigar forte. Mesmo que em algum momento
se tenha usado gel. Ou por causa disso.Gel, mães e filhos (1)
Uma jovem mãe percorre as prateleiras do supermercado com o telemóvel
na orelha. Procura um gel para o cabelo e percebe-se que, com branda resistência,
está a ser dirigida remotamente pelo filho adolescente. Efeito molhado, fixação
normal, forte ou extraforte, marcas, preços... As variáveis são muitas e é
difícil encontrar um equilíbrio entre a exigência do rapaz e a carteira da mãe.
Não parece aborrecida com os caprichos do filho, talvez porque já teve
ou testemunhou experiências piores. Protagonizadas por teenagers maldispostos, rudes, rufiões, que acompanham as mães às
lojas como quem sequestra um desconhecido e o leva sob coacção ao multibanco mais
próximo. Filhos que mandam calar as progenitoras e cospem em público ninguém te perguntou a opinião como
bandidos sem paciência para as objecções patéticas e impertinentes das suas
vítimas. E que, depois de escolherem algo da última moda para gangues (que um
diligente criativo desenhou a pensar na globalização do Bronx), arrastam com
maus modos a mãe para a caixa, deixando já adivinhar que à saída da loja
atirarão com ela e a sua carteira vazia para uma valeta.
A mãe no supermercado fica por momentos esquecida a olhar carinhosamente
a filha, talvez para afastar maus pensamentos. A rapariga, criança, entretém-se
na secção de produtos para o rosto — não ainda a projectar-se na adolescência
que tarda, mas porque as cores e as formas lhe parecem divertidas.terça-feira, 29 de outubro de 2013
O Padrinho
Na Periférica, a coluna de J.
Rentes de Carvalho tinha o título deste post. Todas as rubricas eram na revista
nomeadas a partir de filmes e a sugestão de O Padrinho para a crónica dele foi absolutamente incontroversa — não sendo a boutade o argumento principal, já que em
rigor não havia uma boutade no título.
Mais de uma dezena de anos depois, aquilo de sábado na Traga-Mundos não
foi bem um debute, uma entronização que JRC apadrinhasse. Foi um reencontro
afectivo. De vez em quando, para revermos amigos, para podermos ter aquele
abraço reconfortante, para recebermos a bênção balsâmica de um patrinu, de um pater, temos de trocar as voltas à vida, criar situações onde tal
possa ocorrer. No sábado, todos (até eu) exagerámos dizendo que estávamos ali a
propósito d’Os Idiotas — mas ninguém escondia
com muita convicção que estávamos ali para recebermos afecto e um pouco daquela
espantosa energia vital de Rentes de Carvalho.
Il padrino, pelo seu lado, não
foi avaro, foi aliás desmedido — para meu embaraço. O texto com que se prontificou a participar na instrumental apresentação do livro, o trecho que se
me refere, deve por isso ser lido apenas como uma enorme e paternal demonstração de
generosidade.
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