segunda-feira, 30 de abril de 2018

Caderneta de cromos


[de um trabalho em curso]

«Suponho que toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que, assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar. Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção oculta, a big picture, o verdadeiro retrato ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los, colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês, seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o bouquet.
Acresce que também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes, escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto. Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta, um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra Talhada.»

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