sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Notas ao correr da pena sobre feminismo e o zeitgeist

Percebe-se o receio de que o movimento descambe para oportunismos, injustiças e, no limite, linchamentos, mas «a liberdade de importunar» é uma coisa perfeitamente estúpida de se defender. A linguagem conta, e quem assinou a carta e quem com ela se regozijou devia sabê-lo. E em tantos casos sabe-o.

É muito destes equívocos de linguagem que se alimenta a reacção às tentativas de mudança do paradigma patriarcal. Não admira os grunhos, mas quando pessoas cultas e inteligentes se escandalizam ou riem com o «fim do direito ao piropo», ignoram alegre e deliberadamente que não é bem essa a proposta ou abdicam de pedir aos proponentes definições e linguagem precisas — porque o equívoco é conveniente a uma agenda conservadora. A agenda conservadora, confortável no seu privilégio, prefere as injustiças conhecidas ao risco de mudar.

Do mesmo modo, esta intelligentsia conservadora prefere sempre manter o debate com as falanges mais extremadas do lado a que se opõem, para que o que se proponha de menos radical não se note, não exista e não singre. Nas suas intervenções, não parece notar que há grandes inconvenientes — digamos assim, eufemisticamente — para as mulheres no regime patriarcal vigente; está demasiado ocupada a agitar os fantasmas do fascismo feminista. Não gasta mais de um mililitro de tinta com a ascensão da extrema-direita e o seu histórico real de fascismo; mas verte baldes dela a inflamar «o povo» contra o «fascismo» do «politicamente correcto».

Esquecendo que o estado de direito (a pedra de toque da civilização) se funda para defender os fracos — contra a lei do mais forte ou a lei da espada —, considera, para que não haja legislação «extremista», que todas as mulheres são tão fortes e imunes à «importunação» masculina como as «peixeiras do Bolhão» (sem ofensa para as verdadeiras) ou como réplicas fatais e de cigarrilha nos dedos enluvados de uma romanesca Mata Hari de revólver na liga.

E agora o choque: sou contra o acordo ortográfico, não por ele significar uma mudança na escrita como a conheço, mas por ser equívoco, incongruente, errado, intrinsecamente estúpido; já a chamada «linguagem inclusiva», vilipendiada automaticamente à esquerda e à direita, parece-me um bom início de conversa para uma mudança de paradigma que em nada me assusta.

Gosto de snobes (estou a ler um deles, Evelyn Waugh), mas só na forma, na estética. Neste debate, os snobes são não raro cínicos ou machistas a tentarem esconder-se de si mesmos com a peneira lassa dos costumes.

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