quarta-feira, 4 de abril de 2018

Artes, públicos, apoios


A propósito do debate gerado por nova falha de mais um modelo do apoio às artes performativas em Portugal — com manifestações de solidariedade mas também de inveja, com indignações ao rubro pela escassez do apoio e indignações não menos afogueadas por o Estado ainda se dar a esse luxo claramente acima das nossas possibilidades e interesses —, relembro um texto de 2014, publicado aqui no blogue. Pode ser lido neste link: http://canhoes.blogspot.pt/2014/06/deixem-o-pimba-em-paz-as-artes-e-o.html

Se tivesse tempo (e ânimo) desenvolveria melhor uma ou outra ideia, corrigiria uma ou outra passagem, acrescentaria outras reflexões, dados (e culpados). Sobretudo corrigiria, com matéria adequada, o tom pessimista, que hoje, passados quatro anos e várias experiências vividas, sei não ser uma inevitabilidade. De forma nenhuma.



sábado, 24 de março de 2018

a violenta e cruel natureza da sobrevivência


[de um trabalho em curso]

Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas, não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos, uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria fisicalidade.
E contudo esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela. Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da sobrevivência. 

quarta-feira, 14 de março de 2018

Sociologia de supermercado #2

— Quando for grande quero ser um génio.
— Já tivemos esta conversa.
— Quero ser como o Einstein.
— Esse não, escolhe outro.
— Porquê, mãe?
— Os génios não têm grande futuro.
— Mas eu quero ser o Einstein.
— O Einstein morreu sozinho, pobre, na desgraça.
— Mas foi um génio, eu li.
— Não insistas.
— Vou ser o Einstein.
— Na escola não têm livros sobre o dono da Sonae, por exemplo?
— Sonae? O que é Sonae?

Sociologia de supermercado #1

O cliente pousa as laranjas no tapete e a caixa tenta equilibrá-las na balança à sua frente.
— Não havia lá sacos?
— Julgo que sim, mas não são necessários, não é?
— Ah, você é anti-sacos…

sábado, 10 de março de 2018

O Professor Passos

Não assinei o Público online porque o jornal me pedia mais dados sobre a minha vida do que o que eu estava disposto a dar-lhe e por isso só consegui ler o lead e um parágrafo do artigo de Manuel Carvalho sobre a polémica do Professor Passos Coelho. Contudo, a não ser que o resto do artigo esteja em contradição com a sua introdução (o que seria absurdo), não julgo que me precipite ao dizer que discordo totalmente de Manuel Carvalho.

Leiam primeiro a sua argumentação:

«Com excepção da vergonha da Tecnoforma, nada na vida de Passos Coelho o impede de ser docente em universidades nacionais.

A polémica dos convites a Passos Coelho para dar aulas em três universidades só merece mais do que uma linha de aversão porque reflecte um preconceito aberrante e expõe à vista de todos uma atitude mesquinha e perigosa. O assunto não chegou ao grande debate nos jornais (ficou-se pela pequena conversa de café ou pelas redes sociais) porque fica mal expor ao grande público a arrogância de classe ou o sectarismo ideológico mais básico que alguns dos críticos manifestaram. Mas, mesmo na penumbra, a onda não deixa de ser reveladora e irritante. O sectarismo que empurra uma certa esquerda, faz hoje de Passos Coelho o que a direita fez com Mário Soares no Verão Quente.»

Em primeiro lugar, a própria introdução do artigo anula toda a argumentação que defenda a contratação de Passos, a não ser que a lógica para Manuel Carvalho seja uma batata. Segundo as suas próprias palavras, há pelo menos uma coisa que de facto que impede a contratação de Passos, que é, diz Manuel Carvalho, a «vergonha» da Tecnoforma. A nódoa da Tecnoforma pode ser «excepcional» na vida do ex-PM, mas existiu e até Manuel Carvalho na sua redacção a considera na verdade impeditiva da sua contratação como professor equiparado a catedrático. Se não queria dizer isto (e provavelmente não queria), Manuel Carvalho devia cuidar mais dos textos que escreve. Poderia ter dito, por exemplo, que «Passos Coelho apenas teve um erro, mas esse erro não é suficiente para impedir a sua contratação». Falando assim, MC revelaria mais condescendência com as vilezas dos nossos chico-espertos da política, mas estaria mais apto a ser literalmente coerente com a sua aceitação da contratação.

Já eu estarei decerto a ser mesquinho com a análise semântica do artigo, mas a acusação dura de Manuel Carvalho ao «sectarismo ideológico» dos críticos, tantos deles professores universitários, exigia-lhe cuidado com a forma como se expressa. Sei que a o artigo de MC, antes de ser uma defesa de Passos, pretende ser um ataque ao tal «sectarismo ideológico» das universidades. Passos é apenas o pretexo, e MC não se importa de, usando-o, defender a honra de Passos. (Também eu, na verdade, estou a usar o excerto do artigo de MC como desculpa para falar da contratação de Passos, por isso estamos quites.)

Mas eu, ao contrário de MC, não desvalorizo «a vergonha» da Tecnoforma. Parece-me reveladora de um carácter (aliás confirmado em vários outros momentos de mentiras e hipocrisias na brilhante carreira do homem). Escrevi em tempos (aqui e aqui, por exemplo) que Passos e Sócrates eram nalguns aspectos essenciais intermutáveis. Postos nas circunstâncias do outro, cada um deles teria agido de forma basicamente semelhante. Com a conjuntura a favor, um Passos pré-Troika teria trazido para o Estado a visão empreendedora que usou na Tecnoforma, só que com maior redistribuição de dinheiro público. Já Sócrates, instigado pela mesma troika que excitou Passos, teria liderado diligentemente um período de austeridade reformadora, talvez com menos moralismo à mistura, mas com um resultado de igual desprezo pelas pessoas comuns e favorecimento de privados. Parece-me por isso natural que se o dinheiro do Estado tiver permitido a um o mestrado parisiense permita agora ao outro a cátedra na Universidade de Lisboa. Certos episódios da vida destas duas figuras nacionais são as duas caras da mesma moeda com que se vende a dignidade e compra a desfaçatez.

Em segundo lugar, não me esqueço de que ouvi Passos enquanto Primeiro-Ministro acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Cito um post que sobre isto escrevi à época:


Ora, o que mudou depois da saída de Passos Coelho do Governo? As universidades públicas já não são censuradas por Coelho por quererem alargar o quadro de docentes? (Julgo que não preciso de dizer que alargar é mais grave do que manter no catecismo de moralização da função pública seguido por Passos.) Agora já podem? Em todos os casos ou só no dele?

Vejamos também a coisa por outro ângulo, não necessariamente ligado a austeridade passista: o ISCSP passou de repente a ter uma necessidade premente de professores? Já teria esta vaga antes e não a tinha conseguido preencher? O Instituto andava desesperadamente à procura de alguém com o perfil de Coelho e ainda não o tinha encontrado? O Presidente do ISCSP (Manuel Meirinho, eleito deputado nas listas do PSD no ano em que Passos ganhou o Governo) não tem nada que ver com a identificação desta súbita necessidade de um professor com as características de Passos Coelho?

Já li por aí que houve antes casos similares (dizem que o de Vítor Constâncio é um deles) e, acusam os defensores de Passos, as pessoas não se queixaram como agora. Este é o habitual argumento idiota que exige igualdade permanente nas reacções e críticas, como se o mal de uma coisa dependesse de ele ter sido identificado e criticado em igual medida noutra. Como se fosse desculpável o erro de alguém por não se ter denunciado um erro semelhante de outra pessoa. A lógica deste género de pseudo-argumentação (e o prefixo pseudo é usado aqui adequadamente, porque só em mentes infantis ou perturbadas por cegueira ideológica ou clubística aquela espécie de relativização constitui um argumento) é a mesma que poderemos aplicar, cinicamente, às vítimas da estatística que não tenham tido a sua parte do frango na célebre enunciação: se em cada duas pessoas uma comer um frango, em média cada pessoa come meio frango. Ou, melhor ainda, no poema de Cesariny: «Que afinal o que importa não é haver gente com fome / porque assim como assim ainda há muita gente que come».
Estes invocadores dos «casos passados» querem, num primeiro momento, fazer-nos crer que se um pecado é comum talvez ele não seja na verdade pecado, estamos enganados no juízo que fazemos sobre a pessoa que defendem. Mas logo a seguir censuram-nos ferozmente por não termos sido lestos a denunciar o erro anterior que lhes serve de relativização, num crescendo que termina invertendo as coisas: o verdadeiro erro a merecer punição foi o anterior, o do elemento do clube contrário, que passou incólume porque as pessoas então se distraíram ou não acharam mal por serem do mesmo clube. Não é só proporem que se cumpra uma cronologia para a crítica e a punição (que as coisas se façam pela ordem dos acontecimentos), ou defenderem uma interdependência de penas (pune-se o último se se punir o primeiro): é tentar que percebamos que o erro cometido pelo seu correligionário não é um erro, porque, ao contrário dos adversários, este e o seu alvo cu excluem-se por unção divina da natureza fisiológica descrita no «Soneto Ascoroso» de Bocage. E terminam com frequência já só violentamente indignados pelo erro anterior, acreditando genuinamente, no seu fanatismo, que não houve o erro actual.
Alternativamente, esta gente que lembra os casos passados foca-se em nós próprios para nos denunciar por termos estado calados e agora falarmos. De repente, mais uma vez, o problema não é Passos ter a magna impudência de aceitar um tacho numa universidade pública, é nós não termos constância na atenção e na crítica, é não sermos polícias de plantão permanente, desde o nascimento até à cova, termos a insolência de nos levantarmos só ocasionalmente e logo por azar quando o erro é cometido por um camarada de quem nos denuncia. Esqueçam ter havido um pecado: o que verdadeiramente abala as fundações da nação é a nossa indolência (e de certo modo é, mas não pelas razões que nos acusam). Esqueçam Passos, o problema somos nós.
Vasco Pulido Valente, que era acusado pelos seus detractores de não ser exaustivo na crítica, de haver partes do país e dos seus oito séculos de história que ele, cronista parcial, estrategicamente poupara (o que é aliás improvável), tinha um manguito retórico sempre pronto como resposta, e algumas vezes li o seu rosnado: fossem chatear o Camões, que ele escrevia sobre quem queria e quando queria, não era obrigado a cumprir quotas.
Um resumo para os utentes do argumento idiota: a desfaçatez de Passos Coelho (é deste caso que agora tratamos) não depende da desfaçatez de todos os outros que aceitaram prebendas semelhantes e muito menos depende da actividade e da coerência daqueles que o criticaram. De resto, a coerência não se mede contabilisticamente nem tem por base a estatística. E uma maçã não deixa de ser uma maçã por não termos dado uma dentada nas outras todas.

Em terceiro e último lugar, Passos foi o responsável por, entre outras bondades, uma lei que determinou a extinção de um conjunto de empresas municipais, com o consequente despedimento dos seus trabalhadores, sem se preocupar se o trabalho que eles faziam era necessário ou não. Tendo-se verificado que, em tantos casos, o trabalho era necessário, e após pressão sindical e de um ou outro partido, lá concedeu que se acrescentasse à lei um artigo que permitia às Câmaras abrirem concurso (na primeira fase limitado à função pública) para esses postos de trabalho e, numa demonstração de impressionante generosidade, fossem considerados elegíveis para se candidatarem os antigos trabalhadores das empresas municipais, muitos com dez anos de serviço. Mas a generosidade do então Primeiro-Ministro não foi ao ponto de permitir que esses trabalhadores mantivessem a categoria e a posição remuneratória anteriores: havia moralização a fazer no país e por isso os trabalhadores que quisessem continuar nos seus postos haviam de passar pela humilhação do concurso e, caso vencessem, a de serem integrados na posição mais baixa da carreira, não servindo de modo algum o conhecimento, a experiência adquirida e a avaliação de dez anos de trabalho para assegurar a manutenção do lugar, da categoria e da remuneração.

Perguntam-me se há algum problema na contratação do Professor Passos com vencimento equiparável ao de professor catedrático? Problema nenhum, por que havia de haver?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Ave-Rara

Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.

[work in progress]

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país


Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o individualismo favorecidos pelo novo medium e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate político cresceram.

Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um adolescente lado cowboy nesta direita e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas, com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição do mundo que hoje temos.

Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do armário, encontrou no Correio da Manhã o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista, um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência quotidiana — a podridão nacional, em suma.

Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.)

Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente «bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer coincidir com o leitor comum do Correio da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.

Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.


* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção das desigualdades.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Da mediocridade

A habitual mediocridade portuguesa, que nunca acredita que o serviço público de qualidade, além de um dever, pode ser sustentável e até popular, acaba sempre por cortar as pernas a quem tem as ideias, a competência, a ousadia ou o talento para o fazer. Se não tem maneira de lhe recusar os meios (o que geralmente tem, da forma mais hipócrita), rapidamente encontra a cláusula que permite aos invejosos, incompetentes, cínicos ou simplesmente imbecis afastar os indesejados. E Portugal seguirá provavelmente, de novo, para serviços públicos que, quais comissões de festas, tratam de assegurar ao povo o seu pão e circo. O que, no caso da RTP, significará novelas, futebol e pimba.

[A propósito da saída de Nuno Artur Silva da direcção da RTP.]

https://www.publico.pt/2018/02/09/sociedade/opiniao/rtp-20152018--o-que-fizemos-1802555]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Best-sellers à portuguesa

Não vi nenhum dos filmes da trilogia Balas & Bolinhos — mas apenas porque não calhou (no que se refere a cinema sou muito diverso e laxo na disposição). Li porém com curiosidade uma entrevista do realizador, que agora lança Bad Investigate, por causa da frase em destaque no jornal: «Ando com este saco de pedras às costas por ter levado pessoas às salas de cinema.»

Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.

Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.

Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»

Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.

Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»

Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.

(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

A minha carreira musical

Um dia fui tocar para um conjunto de baile. O baixista titular fora requisitado pela tropa, a temporada de festas aproximava-se e alguém fez espalhar o boato de que eu sabia tocar o instrumento. Fui convocado. No primeiro ensaio, entusiasmados com a aquisição, os chefes da banda espetaram-me também com um microfone à frente e disseram-me para cantar. Era evidente que o nefando boateiro, por pura maldade, escondera a minha incapacidade biológica para o canto. Ok, talvez não a tivesse escondido em absoluto, já que era uma música dos Sétima Legião o que queriam que eu cantasse. (Convém dizer que naquela altura os grupos de baile eram organizações eclécticas com um repertório que ia sem hesitações nem mudanças de figurinos do samba aos Doors.) Como em tantas fases da minha vida, o simples facto de me pedirem uma coisa activou o bloqueio mental que em momentos-chave me impede de dizer o imperativo «não». (Bloqueio esse que, entre outras coisas dolorosamente inesquecíveis, fez de mim em tempos signatário cumpridor de um contrato para adquirir a prestações uma imprescindível bíblia de luxo). Cantei, portanto. Ou tentei. Foram na verdade horas de tortura (para todos, mas sobretudo para os restantes músicos): qual Rambo nas mãos do Vietcong, eu estava naquela época, ainda mais do que hoje, programado para nunca soçobrar perante o ridículo.
O ensaio passou e não me tornei contudo ali cantor — e, até agora, por piedade, para me pouparam ao embaraço, ninguém voltou a tocar no assunto.
Mais tarde nesse ano chegou, como era inevitável, o dia da primeira actuação. Nas músicas iniciais eu estava fascinado por não conseguir ouvir uma nota do que tocava, não sei se porque quem estava na mesa me tinha por profilaxia cortado o som, se por não estar habituado a tocar fora da sala de ensaios, se por estar já bêbado. Bem, alguma consciência teria ainda, porque me lembro de ter passado com alívio o baixo ao tipo que eu fora substituir e que entretanto, em licença da tropa, me pedira para subir ao palco para matar o vício. Pelo meu lado, não regressei nessa noite.
Com o tempo, durante o Verão, aprendi a disfarçar as notas que não decorava e a forjar a fama futura de que tinha uma técnica e um estilo — sublinhados pelo facto de usar luvas sem dedos e ter uma atitude em cima do coreto ou do tractor semelhante à que qualquer baixista pateta ou consumidor de má droga teria em Glastonbury.
Na verdade, a minha carreira musical iniciara-se anos antes, invejando o talento musical de um irmão e observando, especado em frente ao palco, o conjunto de serviço nos bailes de domingo à tarde, em particular o seu baixista, com bigodito de actor porno dos anos 70, que, se não recordo mal, usava apenas um dedo da mão direita e dois da esquerda. Aprendi a tocar guitarra fazendo sangrar os meus próprios dedos com um entusiasmo totalmente excessivo e desajustado e assumi a carreira de baixista anos antes de pegar num baixo, escondendo de mim mesmo que as duas cordas a menos não tinham nada que ver com a escolha. Para provar a vocação, estava sempre pronto a chamar de ignorante quem repetia o dito então em voga que dizia serem os baixistas guitarristas frustrados. Não era frustração, era sensibilidade.
Fui bailadeiro de uma temporada só: chegaria entretanto a minha vez de ir para a tropa e entregar a viola a outro. Quando passei à disponibilidade, furriel encartado, anunciei que o tempo de grupos de baile para mim tinha passado, os meus interesses artísticos já não eram os mesmos. Não reclamei o meu lugar no grupo, jurando que isso não se relacionava com o facto de o meu substituto ter desempenhado com tal brilhantismo o papel que na prática reinventara o conjunto e o repertório. Se um ano depois havia alguém que se lembrasse da minha passagem pelo grupo essa pessoa era eu, só eu, e o que tinha não eram memórias, mas cicatrizes neuronais de vexames.
O que não me impediu de perseverar na carreira musical.
Após mais quatro ou cinco anos de insistência no equívoco, chegava o apogeu, com a participação num concurso nacional. Entre algumas centenas de grupelhos candidatos (pelo menos assim o consagrou a lenda), a nossa banda era uma das três ou quatro dezenas apuradas. Procurando estar à altura de tão festivo momento, a descida a Lisboa para a actuação ao vivo na eliminatória foi antecedida de meticulosa escolha de guarda-roupa. Sabíamos a importância da imagem no mundo pop-rock, pelo que lá fomos comprar fatos, coletes e gravatas que apenas eram cool na nossa imaginação e num copo d'água em Massamá. (O percussionista evitou a despesa e a ilusão enfiando-se no fato de casamento, com papillon, camisa de folhos e tudo.)
Não ganhámos o concurso e poucas semanas depois a banda desfez-se. Hoje constato, sobretudo com embaraço, que a minha carreira terminou quando começou a dos Ornatos Violeta, vencedores daquela edição do Rock Rendez-Vous.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Hotel do Norte por Carlos Alberto Machado

Enquanto finjo pensar sobre o que que hei-de-dizer na apresentação aguiarense do Hotel do Norte, no próximo sábado, deixo aqui o texto generoso que o editor Carlos Alberto Machado usou na apresentação na Flâneur.


HOTEL DO NORTE
Breve apresentação por Carlos Alberto Machado
Porto, Livraria Flâneur, 16 de Dezembro de 2017


Este Hotel do Norte, tem, na minha leitura, um olhar sobre o mundo português dos séculos XX e XXI, em particular com a vinda para Portugal, nos anos 1975 e 1976, de centenas de milhar de cidadãos, com bilhete de identidade português, vindos das então colónias, sobretudo de Angola e de Moçambique. Chamaram-lhes, impropriamente, “retornados”, pois uma parte considerável deles só conheciam Portugal de ouvir falar, como se sabe. Hoje, talvez lhes chamássemos refugiados – de guerras, ou de países à beira da falência social, chamemos-lhe revolução. Seja como for, este “tema” dos “retornados” não deve ser esquecido. Adverte, no livro, um deles – o Sr. Beirão, que gloriosamente faz jus ao nome licoroso:

«Não têm nada a temer, a ditadura acabou. O nosso Walter apenas trata de duas coisas: dar continuidade ao livro de registos do hotel e assegurar que a nossa passagem por aqui não será esquecida pelas gerações vindouras. Os outros olhavam-no, ainda indiferentes — conheciam a história. E porque haveríamos de querer que se lembrem que estivemos aqui, fugidos de um problema que não criámos?, perguntava um dos renitentes. Ora, precisamente, aí está um bom motivo, dizia o Sr. Beirão. Se vivemos as consequências de um problema que não criámos, será bom que o país não se esqueça disto, quando um dia nos quiser acusar dalguma coisa. Ou, pelo contrário, se formos nós a querer acusar o Estado de alguma coisa. Ouvi falar que há quem pense em exigir indemnizações e para isso é bom que não nos percam o rasto nem por um dia
[p. 87]

O retorno (ou a fuga) das colónias africanas: um tema que se cola à pele das personagens – e assim não se poderá ler este livro sem ter esse alerta.
Além do Sr. Beirão, outra personagem acima citada, o inquiridor Walter (que é, se não me falhou a atenção, a única personagem que está presente do princípio ao fim do livro). Walter, o do bigode vermelho, é um solitário que «não pensava no erotismo e na religião como opostos: desejava do mesmo modo inofensivo a vida eterna e a satisfação do corpo.» [p. 87] Como disse na sinopse, Walter envereda por uma investigação detectivesca através da história e do rasto ténue que os antigos hóspedes deixaram – desde 1941, quando as termas e os hotéis do parque onde este situa tiveram uma época de algum fausto, embora a saúde fosse então o principal motivo da estadia de famílias burguesas. Quando travamos conhecimento com esta personagem, logo nas primeiras páginas do livro, vemos que ele se irá dedicar, com tenacidade e até teimosia, a reconstituir a vida do hotel (numa inquirição arquivística a partir dos documentos existentes na cave do hotel), desde o meio do século XX (anos 40), até 1975, ano em que ali chega vindo de Moçambique. Esta é a linha principal do livro: a que nos vai mostrando, num vaivém entre a realidade e a ficção, de forma insidiosa, as relações entre “retornados”, as destes com habitantes dos lugares circundantes, e, quem sabe, as de entre homens e mulheres cujas vidas, todos enredados numa trama que o empreendimento detectivesco de Walter ora parece desvendar (aquilo que está por detrás das aparências), ora faz mergulhar a aparente clareza das coisas em estratos de sonho ou de fantasia. E isto não fui eu que descobri. Tenham paciência, por favor, para esta citação, um pouco mais longa:

«A meio da leitura do manuscrito [Leonardo] não estava capaz de decidir se o que tinha à minha frente era material biográfico ou uma ficção.»
[p. 269]

«As histórias da infância estavam registadas em capítulos intercalados, com referência ao tempo presente. Histórias dentro de histórias que narravam os nossos encontros e as nossas conversas com um detalhe inquietante. Era uma sensação bizarra ver-me como personagem de algumas passagens daquele manuscrito, passagens que lhe conferiam absoluta verosimilhança mas que se sucediam a outras que não poderiam ser senão especulação. Por mais que Jorge conhecesse os personagens da sua história (aqui entendida no sentido biográfico) (…) o relato estava construído com um pormenor que apontava para a liberdade literária. As investigações de Walter, sobretudo, não podiam ser outra coisa.
Talvez Jorge tivesse descoberto uma vocação artística tardia e, na verdade, aquele manuscrito na forma de bonecas russas fosse uma tentativa de romance, mesmo que pudesse parecer-se com a sua biografia e ele se servisse de memórias para o compor. Talvez até os relatos que ele me fazia não fossem mais do que testes do valor do material que estava a escrever — muitos escritores liam os seus esboços a um círculo íntimo para avaliar o impacto da obra que escreviam antes de a darem por encerrada e a publicarem. Nesse caso, ter-me-ia Jorge escolhido também para agente literário? Quereria que fosse procurar um editor para a sua obra? Se fosse assim, por que não me tinha simplesmente dito tal coisa?»
[p. 270]

Trata-se aqui de «histórias dentro de histórias», de uma narrativa em «forma de bonecas russas». É este um dos principais, senão o principal, mérito desta grande narrativa do Rui Ângelo Araújo, a mestria com que, sem deixar de nos contar uma estória, várias estórias, nos faz mergulhar numa roda-viva de sensações, em que, em cada nova arrumação dos vidrilhos do caleidoscópio narrativo, nos deslumbra com as suas voltas e contravoltas.
E nessas estórias, enredos, fios narrativos, ancorados em personagens ricas, intensas, com energia, como dizia o poeta Ruy Belo, que o Rui Ângelo tão bem sabe construir, temos os ditos Beirão e Walter, Delfina e a sua mãe e padrasto, de entre os retornados”, e, fora deste universo restrito, o taberneiro Emílio, Eurico e a sua esposa, a “cantadeira” Rosa, um Jorge que se desvenda ao longo do livro em relação psicanalítica com um outro não menos enigmático Leonardo, que surge como um narrador tardio, a Catarina Mendonça e os seus pretendentes, esta Catarina que, no tal clima de deslizamento entre o real e a ficção, ora parece alguém “real”, ora alguém saído da inquirição arquivística de Walter… E há assaltos e roubos, amores e desamores, mortes, incêndios…

E como se tudo isto não fosse razão, razões, muitas, para ir a correr comprar e ler este Hotel do Norte, há outras razões: como já disse um crítico encartado, este romance é «um belo exercício de escrita» e o seu autor «mostra aqui, na sequência do que já havia feito anteriormente, que é um excelso prosador.» E eu estou em pleno acordo com o crítico.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

L'affaire «tribune Deneuve»

Como Catherine Deneuve, também «não gosto desta característica do nosso tempo em que qualquer um se sente no direito de julgar, de arbitrar, de condenar». Para reconhecermos quão grandes são as probabilidades de erramos quando julgamos pessoas de quem não somos próximos ou atitudes cujas matizes e complexidades desconhecemos não precisamos de grande intelecto ou perspicácia — mas não podemos dispensar bom senso, prudência e imparcialidade.
O movimento #metoo tem em si o potencial de se constituir uma versão contemporânea das Bruxas de Salém, sem dúvida. Como as denúncias de pedofilia em tempos recentes, o tribalismo no futebol ou alguns assuntos que se tornam «virais» na Internet: veja-se a patética reacção «transmontana» a umas frases irrelevantes de José Cid.
Na verdade, dada a sua globalização e projecção mediática, o movimento #metoo tem esse potencial bastante mais agravado, pelo que um artigo como o que Catherine Deneuve e Catherine Millet assinaram com uma centena de outras mulheres é bem-vindo, precisamente para moderar excessos e convidar à reflexão.
Mas «la tribune Deneuve» (para usar a designação do Le Monde) não deveria, não poderia ter-se escrito sob o mote «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle».
No meu post anterior sobre este tema falava da importância da linguagem e de como o seu uso descuidado ou cínico é fonte de equívocos, involuntários ou calculados. A celebração e o aproveitamento triunfante do «artigo Deneuve» por tantos reaccionários e machistas — que a própria Catherine Deneuve teve de vir repudiar — ilustram o que pretendo dizer. Num assunto tão delicado como os relacionamentos sexuais e a liberdade individual falar de «liberdade de importunar», seja qual for a acepção que escolhamos da expressão, é, no mínimo, imprudente, mas parece ser em simultâneo um lapsus linguae ou uma opção próprios duma cultura patriarcal.

No Delito de Opinião, o seu editor Pedro Correia eleva a «comentários da semana» (imagino que com a intenção de nos mostrar a jaez dos raciocínios) dois textos que são exemplos tanto da perversidade da cultura patriarcal como do aproveitamento boçal ou sem escrúpulos favorecido pelos equívocos de linguagem. Um dos comentários reduz as simpatizantes do #metoo a «solteironas guardiãs da moral», comparando-as, com supina elegância, às beatas dos anos 70 da sua aldeia, lubricamente indeciso entre as considerar «solteironas e provavelmente inteiras» ou «devotas sim, mas do apessoado sacerdote». Repare-se que o comentador, certamente por falta de espaço, não considera a possibilidade de haver homens neste grupo de «guardiães da moral», caso contrário estou convencido de que teria arranjado estórias apropriadas para os descrever, possivelmente recolhidas nas suas tascas dos anos 70 ou de sempre.
O outro comentário é ainda mais digno de admiração. São dois pequenos parágrafos apenas, mas tiram grandes conclusões para a humanidade em geral e para as mulheres em particular. Fica aqui o primeiro:
«Ninguém pode negar que o assédio sexual e que as violações existem. É um facto. Mas também ninguém pode negar que há uma necessidade imperiosa, para a espécie humana, de que os homens assediem as mulheres. Se nunca os homens assediassem as mulheres, nunca eles se uniriam sexualmente e não haveria reprodução! O assédio é portanto fundamental. E mulher que nunca seja assediada por nenhum homem certamente que ficará profundamente infeliz!»
Devemos regozijar-nos, suponho, por o pai deste bravo pensador ter em boa hora «assediado» a esposa, caso contrário, impedida por natureza de ser ela assediadora, seria por certo mais uma «solteirona» infeliz e «inteira» (para citar o comentário anterior) e o mundo ter-se-ia privado de tão luminosa descendência.

O lado conservador mas polido do debate sobre sedução versus assédio sexual recebe por vezes estes comentários e outros mais graves com um indulgente bocejo, considerando implicitamente, não direi que por mera conveniência, tratar-se apenas de excessos próprios das malfadadas «redes sociais» e que os seus autores têm por regra um comportamento na vida real que não corresponde às alarvidades que por desenfado publicam. Olhando para as estatísticas (e olhando em volta, enfim) sinto-me tentado a duvidar. Mas sobretudo não compreendo que, na sua enorme indulgência, o lado conservador esteja menos disposto a considerar que as/os simpatizantes do #metoo sejam em geral, como as suas némesis machistas, incapazes na vida real de se transformarem em caçadores de bruxas.
A mim parecem-me ambos preocupantes, machistas e caçadores de bruxas, e por isso não vejo por que o medo dos segundos me deva levar a subestimar os primeiros. Excesso de igualitarismo da minha parte, decerto.

sábado, 13 de janeiro de 2018

A caminho das Pedras

(clique para ampliar)

O filho pródigo à casa torna. Ou quase. De hoje a oito dias, na boa companhia da Maria Filomena, levarei o Hotel do Norte a apresentar-se na Biblioteca Municipal de Vila Pouca. Será um gosto rever amigos e dizer-lhes que não, o livro não é uma monografia das Pedras Salgadas.

FNAT

Na despedida, o presidente da TAP diz que os últimos 17 anos foram para si muito «enriquecedores». Não é o único, felizmente, a sentir-se realizado em Portugal. Francisco de Lacerda, António Mexia e umas dezenas mais também têm tido carreiras agradavelmente estimulantes e recompensadoras.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Notas ao correr da pena sobre feminismo e o zeitgeist

Percebe-se o receio de que o movimento descambe para oportunismos, injustiças e, no limite, linchamentos, mas «a liberdade de importunar» é uma coisa perfeitamente estúpida de se defender. A linguagem conta, e quem assinou a carta e quem com ela se regozijou devia sabê-lo. E em tantos casos sabe-o.

É muito destes equívocos de linguagem que se alimenta a reacção às tentativas de mudança do paradigma patriarcal. Não admira os grunhos, mas quando pessoas cultas e inteligentes se escandalizam ou riem com o «fim do direito ao piropo», ignoram alegre e deliberadamente que não é bem essa a proposta ou abdicam de pedir aos proponentes definições e linguagem precisas — porque o equívoco é conveniente a uma agenda conservadora. A agenda conservadora, confortável no seu privilégio, prefere as injustiças conhecidas ao risco de mudar.

Do mesmo modo, esta intelligentsia conservadora prefere sempre manter o debate com as falanges mais extremadas do lado a que se opõem, para que o que se proponha de menos radical não se note, não exista e não singre. Nas suas intervenções, não parece notar que há grandes inconvenientes — digamos assim, eufemisticamente — para as mulheres no regime patriarcal vigente; está demasiado ocupada a agitar os fantasmas do fascismo feminista. Não gasta mais de um mililitro de tinta com a ascensão da extrema-direita e o seu histórico real de fascismo; mas verte baldes dela a inflamar «o povo» contra o «fascismo» do «politicamente correcto».

Esquecendo que o estado de direito (a pedra de toque da civilização) se funda para defender os fracos — contra a lei do mais forte ou a lei da espada —, considera, para que não haja legislação «extremista», que todas as mulheres são tão fortes e imunes à «importunação» masculina como as «peixeiras do Bolhão» (sem ofensa para as verdadeiras) ou como réplicas fatais e de cigarrilha nos dedos enluvados de uma romanesca Mata Hari de revólver na liga.

E agora o choque: sou contra o acordo ortográfico, não por ele significar uma mudança na escrita como a conheço, mas por ser equívoco, incongruente, errado, intrinsecamente estúpido; já a chamada «linguagem inclusiva», vilipendiada automaticamente à esquerda e à direita, parece-me um bom início de conversa para uma mudança de paradigma que em nada me assusta.

Gosto de snobes (estou a ler um deles, Evelyn Waugh), mas só na forma, na estética. Neste debate, os snobes são não raro cínicos ou machistas a tentarem esconder-se de si mesmos com a peneira lassa dos costumes.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Fim da linhagem

«Ele punha-se a dizer que não havia nada mais lindo do que um cão e esperava que eu me enternecesse como ele se enternecia. Já sabes que eu não suporto animais, dizia-lhe, não lhes quero mal, mas não os suporto. Ele ignorava os meus argumentos e continuava a olhar para onde quer que lhe apetecesse olhar, compondo o seu ar de miúdo sabidolas e independente. Tenho uma solução para ti, respondia, como se eu fosse um problema a precisar de uma solução. Depois, ia-se a ver, e, ainda que ele não pensasse assim, a solução não era para mim mas para o meu problema, porque pesando bem as coisas eu não era um problema, eu tinha um problema. Pomos-lhe uma caixa em cima com um buraco para ele espreitar e já não podes dizer que é um bicho, insistia, passas a ter uma encomenda como mascote. E ria-se. Lá em baixo na rua deslizava uma caixa de papelão levada pelo vento e era aquilo o que lhe dava matéria para discursar. A noite marcava o início do Inverno; o frio, a chuva e o vento tinham finalmente unido esforços para fazer descer a estação à nossa latitude, depois de um Outono seco e com temperaturas altas. A ideia vinha de um filme de que por acaso lhe falei, o meu irmão não tinha imaginação para coisas destas, mas a mim ocorria-me o mesmo ao espreitar o alcatrão molhado, onde a embalagem de um aparelho de televisão fazia o percurso aleatório das últimas folhas das tílias, como se andasse por ali, debaixo da caixa, o agorafóbico cão de The Price of Milk.
Estava disposta a manter-me ofendida, eram as minhas memórias o que ele usava, servia-se dos meus relatos para se fazer interessante e para construir as suas frases insidiosas, as suas metaforazinhas, e com elas causar-me dor. Para tua informação, dizia-lhe, no filme o cão supera a fobia, mas eu não tenciono abandonar esta casa nem por um minuto, e com os braços trémulos de raiva fazia rodar a cadeira para longe da vidraça da sala. Ele fingia-se surpreendido, mas não evitava o sarcasmo, via-se-lhe nos olhos a forma industriosa como tudo, cada palavra, era convertido em farpas, ainda que se forçasse a ser subtil. Não me passava pela cabeça sugerir-te isso, querida, dizia, apenas achei que te seria útil uma companhia. E a mim apetecia-me dizer uma companhia mais assídua, mas continha por segundos a vontade de argumentar, estava já demasiado humilhada para me submeter a estes torneios. Agradeço que te preocupes com a minha solidão, respondia, abertamente irónica, sem afinal resistir ao diálogo, sobretudo aprecio a tua intenção de delegares num cão ou num caixote as obrigações do amor fraternal. Depois arrependia-me de frases destas; eu precisava dele, isso era evidente, mas a mágoa que sentia pedia-me que ocultasse o mais possível as minhas fraquezas. Ele obtinha a sua pequena vitória e sentia-se ainda mais investido na função de tomar decisões por mim, de saber o que era melhor para mim, mesmo que o melhor para mim fossem coisas insuportáveis como ter uma mascote ou uma mulher-a-dias ou uma enfermeira particular. Abominava a intromissão de quem ou o que quer que fosse na minha casa, mas o meu irmão estava disposto a passar por cima de mim para assegurar o meu bem-estar e não se dava conta do paradoxo. Talvez porque não era propriamente em mim que ele pensava, mas na noção de correcção que lhe tinha sido inculcada cedo com um conjunto enorme de princípios de pacotilha. Ter uma irmã, a sua única irmã, o último membro da família, prostrada numa cadeira de rodas era algo que se cravava nas suas entranhas com a força das bestas que ele conhecera em África e que lá caçara com decisão e jactância.
A doença não era para ele um mal que se abatera sobre mim, mas a desculpa que eu procurara toda a vida. Amparava-me por dever familiar e social, mas odiava-me por aceitar a reclusão e uma vida que ele considerava inútil. Às vezes queria que eu ficasse a par de milagres que certas publicações pouco escrupulosas divulgavam, insinuando à sua maneira pretensamente divertida que pela oração é que nos salvamos. Algures na sua mente tradicional residia a ideia de que se eu desejasse suficientemente viver e fosse suficientemente fervorosa nas crenças que ele achava respeitáveis haveria uma altura em que teria acumulado tantas ave-marias e tantos pais-nossos que não me restaria outra hipótese senão levantar-me e caminhar, tal a força da fé e a misericórdia de Deus. Eu insultava a sua personalidade beata e dizia-lhe que a única coisa de que necessitava era que ele se pusesse a milhas, me deixasse tratar da minha vida na minha casa. Como tu quiseres, dizia ele sem na realidade dar importância ao que eu pensava nem se sentir livre de obrigações para comigo, mas na tua condição dispensar a companhia de um cachorro ou de um gato é uma atitude soberba. Eu ficava a pensar na expressão, mas estava cansada de ser racional, já não lhe dizia que ter as pernas paralisadas não era uma sentença, não me obrigava a nada que não quisesse. Dizia vai-te foder, e isto, que não resolvia nada, aliviava-me um pouco, e por isso repetia algumas vezes, vai-te foder, vai-te foder.
Talvez devesse estar agradecida por ter alguém que queria olhar por mim, mas não conseguia sentir as coisas deste modo; para o meu irmão eu era uma parte da herança da família, mais um dos itens do inventário a que era preciso dar atenção, só isso. Não se perdoaria se me acontecesse algo, como não se perdoava quando se quebrava uma das jarras chinesas ou quando uma das propriedades ardia, mas não lhe importava muito a minha opinião sobre o assunto. Pelo meu lado, eu considerava que o que havia para me acontecer tinha acontecido e não tinha a certeza de o lamentar, lamentava-o sem dúvida muito menos do que ele. Quando um dia damos por nós numa cadeira de rodas, o primeiro pensamento é para todas as coisas que vamos deixar de poder fazer, como se antes daquele momento passássemos os dias a querer fazer coisas. Suponho que não escapamos com facilidade à autocomiseração e quando o conseguimos ainda temos de lutar com a comiseração alheia. Se me tivessem amputado as pernas, o meu irmão não teria dúvidas, até para ele seria evidente o carácter inelutável da minha nova condição. Mas as pernas estavam ali, incólumes, e percebo que as pessoas se revoltem contra a inutilidade de membros assim. Eu fi-lo, quando percebi que sem as poder usar ia depender de terceiros para a minha derradeira viagem, aquela que me levaria a casa, ao sítio de onde eu finalmente tinha uma razão para não sair. Passei muito tempo no hospital à espera de um enfermeiro verdadeiramente altruísta que me metesse numa ambulância e me deixasse sem perguntas no elevador do prédio. Tinha a certeza de que faria facilmente a parte final do caminho, no patamar do meu piso. Mas foi o meu irmão quem empurrou a cadeira, cheio de fórmulas de encorajamento e estatísticas sobre a longevidade das pessoas em condições adversas, relatos de triunfo e felicidade. O meu irmão não era o único a confundir esperança de vida com esperança de viver. Eu desistira desta aspiração há muito tempo e não nego que por isso tinha mais facilidade em encarar a paralisia como uma benesse. Infelizmente a minha desculpa era também aquilo que me fazia depender dele. Claro que, pelo meu lado, a dependência seria suportável se ele me tratasse verdadeiramente como uma das cabeças de gado da família, me afagasse regularmente a cabeça e mais não fizesse do que designar alguém para fazer subir até mim as coisas de que eu necessitava e para tratar da limpeza da casa uma vez por semana. Se ele fosse capaz deste tipo de honestidade, a minha docilidade estaria à altura das conveniências. Mas havia o factor humano a contaminar as nossas relações. Ele não conseguia ser um cínico acabado e eu não me livrara de todas as carências, havia ainda espaço em mim para o afecto, vivia um estoicismo inacabado. Quero dizer que ainda amava o meu irmão, quase tanto quanto o odiava.
Sempre que entro aqui, dizia ele, abandonando por momentos a estratégia do humor, sinto uma nostalgia forte, recordo como era regressar a casa nas férias grandes, depois de termos ido para o colégio; os objectos, a disposição dos móveis, quando eu entrava tudo me parecia familiar e novo simultaneamente. E lembro-me que o que me apetecia era passar os dedos pelas coisas, espreitar todos os compartimentos, mesmo antes de abraçar o pai e a mãe. Herdaste dela o bom gosto, o jeito para decorar um lar. Olho à volta e poderia jurar que houve aqui dedo dela, Deus a tenha. Não era verdade, a casa da família era muito mais antiga do que a mãe, e quando ela lá chegou não teve autorização do pai para mexer em nada, para redecorar o que quer que fosse. A memória do meu irmão estava a fazer um trabalho delicado de reconstrução, a sua actual sensibilidade servia o branqueamento do machismo paterno, enraizado no lado masculino da família por séculos de prática empedernida. Nada no meu apartamento lhe permitia lembrar o património familiar, era apenas eu que me parecia fisicamente com a mãe e ele que se sentia perdido sem os pais, os avós, os tios, a pequena multidão que nos acompanhou até à idade adulta. A linhagem tinha chegado ao seu fim connosco e ele não aceitava com facilidade que o último membro do clã, eu, fosse tão voluntariamente anónimo e desinteressado do futuro. Uma casa tem de ter armários e mesas e cadeiras, não?, respondia-lhe com vontade de o desprezar por cada palavra que dizia. Essa é a única semelhança, em casa havia mobília e aqui há mobília, não sei o que mais podes ver de parecido. Nem nós nos parecemos com aquelas duas crianças estúpidas, tu agora com a mesma barriga e a mesma obstinação cega do pai, eu sem a paciência que naquela altura tinha para as vossas ilusões patriarcais. Não, voltava ele, por mais que o negues aqui respira-se o mesmo ar que se respirava lá em casa. Isso é porque de cada vez que expiro me livro de mais um pouco desse tempo de merda, retorquia eu. Podes vir aqui absorver o meu dióxido de carbono todas as vezes que quiseres, com a condição de que deixes lá fora os teus projectos para mim. Ele dilatava as narinas ao ouvir-me, inspirava a plenos pulmões como se de facto a atmosfera estivesse impregnada dos aromas da velha casa. Algures no seu cérebro era estabelecida uma ligação e a realidade não o conseguia desmentir. Na verdade, a ligação existia, mas não estava na casa, estava em mim, não só na minha respiração, mas no som da minha voz, nos traços do meu rosto, nos gestos que a cadeira me deixava fazer, na forma como em certos momentos eu o olhava.
Não estranhei quando uma noite me pediu para o deixar subir com uma das suas mulheres e dormir no quarto vago. Aquilo não fora uma necessidade de última hora devida a uma avaria no carro, era uma ideia fantasiosa que ele não se impediu de pôr em prática. O seu objectivo com as mulheres era a procriação, assegurar a descendência. Teve várias antes de perceber que o problema estava nele, que o seu sémen era inútil. Naquele dia tinha sido emitido o derradeiro boletim clínico e ele tinha-o lido, mas na sua mente tradicionalista e beata havia ainda uma última tentativa a fazer, procurar no domínio do místico aquilo que a ciência lhe negava. Tocou à campainha e conduziu a mulher ao quarto, mas ficou-se a vaguear pela casa antes de lhe ir fazer companhia. Parecia absorto, preocupado com alguma coisa, mas na verdade dedicava-se a uma espécie de ritual, embebia-se da atmosfera, convocava os fantasmas que a minha respiração largava no apartamento. O seu olhar cruzou-se com o meu por várias vezes e em todas ficava latente um pedido, uma súplica que ele não tinha coragem de materializar. Cansada daqueles enigmas e da sua deambulação, fiz rodar a cadeira para o meu quarto e deitei-me. Ouvi-o encostar-se à minha porta antes de avançar finalmente para o quarto que eu lhe emprestara e nesse momento percebi o que pretendia de mim. Mas não estava disposta a alimentar a sua credulidade, a servir de amuleto para aquilo que se propunha. Não seria eu quem abençoaria aquela cópula, mesmo que por absurdo estivesse convencida como ele de que se velasse à cabeceira da cama, em nome de todos os que nos tinham antecedido neste mundo, a mulher debaixo do seu corpo lograria conceber naquela noite. Havia ainda, talvez, outras razões para aquele seu desejo, mas preferi ficar a ver o dia aparecer na janela e não pensar no assunto.»


Novembro de 2008
(Publicado em 27 acrobacias sobre (quase) a mesma coisa – Igualdade de género contada e ilustrada, Esdime: 2014)