sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Polígrafo

Surgiu um ‘jornal’ com site e uma página no Facebook que pretende analisar notícias e afirmações públicas para fazer uma verificação de factos. Tarefa louvável e muito necessária. Acontece que o Polígrafo, assim se denomina, publica na sua primeira página demasiados posts em que o título é uma interrogação. Ora, como, além da imagem, o título é o único texto visível (se não clicarmos para entrar no artigo) no site e nas partilhas no Facebook, e sabendo nós que muita gente se fica pelos títulos, parece-me que o Polígrafo vai alimentar mais as ambiguidades, os equívocos e os boatos. Faria melhor o seu trabalho se cada título não deixasse margem para dúvidas: se limitasse a ser uma declaração assertiva e inequívoca sobre o facto que pretende verificar ou esclarecer. Percebo que o título em forma de pergunta seja uma tentativa de seduzir leitores, procurando o efeito de suspense, alimentando o mistério para levar as pessoas a entrarem no texto. Mas nas plataformas digitais e nos tempos que vivemos, corre o risco de ser apenas sensacionalista, promovendo a polémica para muitos antes de a esclarecer apenas para alguns.
Chegou talvez a altura de os jornais deixarem de querer seduzir leitores e passarem a informá-los. Com qualidade jornalística e literária, se possível, mas desejando sobretudo informar, sem agendas paralelas nem objectivos comerciais nem ambição de popularidade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O melhor da direita liberal ou conservadora contra o Bozo

É reconfortante ver que à direita há quem tenha decência. Este texto de David Dinis diz o óbvio ululante sobre Bolsonaro e em simultâneo lembra-nos como no Observador, e em certas facções da direita dita conservadora, reina o mais puro fanatismo.

https://eco.pt/opiniao/aos-meus-amigos-do-observador-e-a-assuncao-cristas/

Há outras declarações à direita que nos dão esperança de que quando chegar a vez de Portugal enfrentar a onda de populismo fascizante (que vai chegar, os sinais já saíram das caixas de comentários e do Facebook, apadrinhados pelo cinismo de serviço) a nossa elite política saberá estar do lado certo.

Leia-se, por exemplo, Francisco Mendes da Silva a dar uma lição sobre conservadorismo aos seus pares:

https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/conservador-nos-tempos-de-colera?ref=Opini%C3%A3o_outros

Ou Adolfo Mesquita Nunes, a sugerir o evidente, que acusar a esquerda de ser responsável pelo surgimento de Trumps, Bozos e afins é cínico e muito confortável, já que não se vê que a direita tenha feito melhor:
«Um espaço político como o da direita das liberdades não pode resignar-se à apresentação de populistas como Bolsonaro ou Orban, lamento. Tem obrigação de saber canalizar as frustrações, as ansiedades, o desespero, para um projeto positivo, integrador, mobilizador.»
O próprio João Miguel Tavares escreveu já dois textos impecáveis, mas depois voltou ao de sempre, com a velha e de momento inútil lengalenga da 'esquerda criadora de monstros' — o que nos põe a pensar se os artigos anteriores não foram apenas para alívio de consciência e registo histórico:

https://www.publico.pt/2018/10/06/mundo/opiniao/bolsonaro-um-fascista-e-um-fascista-1846282

https://www.publico.pt/2018/10/23/sociedade/opiniao/senhores-policias-nao-chegamos-brasil-1848417

https://www.publico.pt/2018/10/25/mundo/opiniao/esquerda-chamou-fascistas-fascistas-vieram-1848683


E depois percorremos o blogue de um outro liberal, criador do mais irresistível conservador da literatura portuguesa das últimas décadas, e vemos que o máximo que conseguiu até hoje foi isto:

https://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/o-brasil-teatro-de-horrores-1596001

Pouco, tão pouco, para quem tanto tem escrito sobre o Brasil.
Aos Bozos desta vida. E aos seus apoiantes, a maioria ruidosa que finalmente tem oportunidade de saltar das caixas de comentários para a vida e o poder. Heil!


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Mais uma caneca de Zuckerberg, por favor

Sei de escritores que abandonaram o Facebook para se tentarem libertar da ânsia de esperar um retorno imediato quando escrevem qualquer coisa. Os ‘likes’, os comentários e as polémicas viciam, é sabido, e a escrita de fôlego é prejudicada quando o escriba ao fim de três esforçados parágrafos se descobre à espera de reacções. Se as não tem porque, por uma vez, deixou o texto offline, fica como as focas no parque de diversões quando no final das piruetas não recebem o peixe de recompensa: frustrado e ressentido, quezilento, não colaborativo. E se, para ultrapassar a crise, opta pelo quesefodismo e publica a prosa, perde as horas seguintes a monitorizar a performance do textículo na net e lá se vai qualquer ambição de desenvolver a ideia, de a fazer chegar a ensaio, novela ou romance.

Mas se o escriba consegue manter-se abstémio, afastando com bravura a caneca espumosa de Zuckerberg, corre outro tipo de risco, particularmente se tiver enveredado por uma prosa realmente longa. Pode bem chegar ao fim das suas seiscentas páginas e ao sair da toca descobrir que, embora o mundo tenha sobrevivido ao holocausto nuclear e às alterações climáticas, não sobrou ninguém com o mínimo interesse para ler o que lhe demorou todos aqueles meses a escrever.

As piores notícias para o escriba não vêm, em suma, das chancelarias diplomáticas nem do IPCC, mas dos relatórios da APEL, se ela produzir alguns que de facto reflictam o mundo actual.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um mergulho ao crepúsculo


Se me pedirem uma definição de felicidade, digo um mergulho ao crepúsculo. Não é de agora, sempre me seduziu a ideia de nadar depois de se pôr o Sol e insinuar a noite. Quando era adolescente, ficava com dois ou três compinchas à espera que o porteiro da piscina se fosse finalmente embora para voltar à água, depois de saltar o gradeamento. Não nos convencia a convenção burguesa de horários de abertura e fecho de uma coisa tão essencial à vida quanto a piscina, e ao crepúsculo a temperatura do ar aproximava-se da da água, pelo que os dois ambientes pareciam extensão um do outro, como se regressássemos à condição primitiva de anfíbios, tão confortáveis dentro como fora da piscina, sem choques térmicos nem sobressaltos existenciais. Toda a gente se tinha ido embora para cumprir o hábito de jantar a horas pelo que se acumulavam sensações: emancipação, liberdade, posse, exclusividade, privilégio, intemporalidade, imortalidade.
Com o tempo deixei de ser um fanático dos banhos, incomodado pelas multidões, pela música idiota e aos berros das piscinas, mas também pelo sol agora inclemente, pelas beatas na areia da praia e mesmo pela areia sem beatas. Contudo, sempre que tive a oportunidade de chegar com bom tempo ao local dos banhos e depois de quase todos terem saído, aproveitei e fui feliz. Mas isso tornou-se cada vez mais raro, as piscinas fecham cedo e a vida tem-me deixado quase sempre longe de praias desertas, lagos ou rios navegáveis a crawl.
Por isso, há dias, quando dei por mim sem compromissos junto ao Douro num fim de tarde paradisíaco, pus-me a olhar para água e a cismar.
Lembrava-me da minha novelita duriense e de como tinha ficado cheio de inveja dos mergulhos do protagonista. (Escrever a novela tinha sido, aliás, em parte, uma tentativa de adivinhação ou de inoculação por via ficcional do prazer de nadar no Douro vinhateiro.)
Havia o inconveniente de estar desprevenido, sem calções de banho ou toalha; a água mostrava-se suja pelos barcos; ignorava as correntes e o fundo de um rio que nunca draguei. Mas havia uma urgência grande de sentir na pele a água e de ter a experiência. Assustou-me a ideia de passar os próximos tempos ou a vida com remorsos de ter recuado.
Os barcos acostaram longe, os últimos turistas já só passavam na estrada a caminho de sítios onde jantar, os peixes ficaram mais activos nas suas emersões para apanhar os mosquitos do ocaso e eu despi-me e entrei na água, suavemente, longamente, até ao eixo do rio e até ser noite…

No dia seguinte voltei, um pouco mais cedo e já com companhia vigilante, que tirou de mim a fotografia ali de cima, onde o autor imita a obra. A foto está lá não para satisfazer o impulso narcísico de me ver e rever nas águas, mas para activar as sinapses que guardam a memória de um mergulho ao crepúsculo. Para me recordar que fui feliz, em suma.



terça-feira, 4 de setembro de 2018

«Woodstock na Igreja»

Vendo-se incapaz de fazer desaparecer devoções e ritos populares dedicados a deuses pagãos, a Igreja Católica ancestral resolveu incorporá-los na sua própria caderneta hagiográfica e no seu calendário paralitúrgico. As festas populares dizem-se de devoção a este ou aquele santo católico, mas uma boa parte delas tem na sua origem e estrutura uma devoção e um costume pagãos.

A moeda de troca que a Igreja Católica aceitou pagar para que o povo não rejeitasse a apropriação foi a bênção mais ou menos tácita do lado profano das celebrações: a música, os bailes, as refeições pantagruélicas, a bebida a rodos, uma alegria desenfreada e por vezes debochada, pouco católica, em suma.

O corolário relativamente recente desta concordata plebeia foi o livre-trânsito para a brejeirice da música pimba. Conquanto um bom punhado de crentes não falte à missa e à procissão, a Igreja não vê qualquer inconveniente em que no adro, na madrugada anterior, se rocem os corpos e cantem letras libidinosas e frequentemente grosseiras, machistas, sexistas, atávicas e desafinadas.

É por isso curioso ler agora que um conjunto de católicos e o próprio bispo de Santarém se indignaram porque no festival Bons Sons (na aldeia de Cem Soldos) houve um concerto de música moderna portuguesa numa capela («Woodstock na igreja», disseram, escandalizados). O protagonista do concerto era essa figura mefistofélica que dá pelo nome artístico de Homem em Catarse (googlem, só correm o risco de gostar).
A notícia vem em vários órgãos de comunicação, alguns dos quais provavelmente nunca dedicaram uma linha ao festival e às actividades de Cem Soldos mas não hesitaram perante esta polémica.

Se tivesse pelo menos a inteligência táctica que demonstrou há séculos, a Igreja Católica estaria hoje a tentar seduzir o Bons Sons (e nós esperando que sem sucesso). Assim, limitou-se a demonstrar de novo uma estrutural estupidez e falta de gosto*.

(*Com a excepção do padre da paróquia.)

domingo, 2 de setembro de 2018

A invasão da joaninha

Na Polónia, se estivermos atentos, somos duma forma ou doutra alertados para os perigos de sermos permissivos em relação à ameaça de regimes fascistas ou totalitários como o nazi e o soviético, mas quando vemos a intensa disseminação de supermercados Biedronka (a ‘Joaninha’ da Jerónimo Martins) e de filiais do Millennium Bank (Millennium BCP) interrogamo-nos se não deveríamos nós alertar os polacos quanto aos perigos que correm com esta nova ocupação.

sábado, 1 de setembro de 2018

Auschwitz e Birkenau ou o castelo de Drácula


Auschwitz e Birkenau não deviam ser visitados de Verão. O Agosto polaco é demasiado benévolo, a paisagem verde demasiado bucólica, a arquitectura demasiado harmoniosa (perdoem-me a observação) e as pessoas, animadas pelo bom tempo, demasiado gentis para que possamos sentir na pele, nas entranhas, a experiência extrema e terrível da vida num campo de extermínio nazi.

A boa prestação da guia, assertiva no relato histórico e na sugestão de que ele nos deve manter em alerta permanente, não chega a arrepiar profundamente os visitantes, decerto condoídos mas temo que não muito mais do que o estariam se visitassem uma masmorra da Inquisição, essa entidade velha de séculos e anacrónica como calças à boca-de-sino, que ninguém acredita que voltem.

A escala desmesurada de Birkenau lá arranca os seus murmúrios de espanto, mas julgo que os turistas do Holocausto apenas interiorizariam a experiência se tivessem de se enterrar nas lamas do Outono ou da Primavera ou de bater os dentes nas neves de Dezembro. Num Agosto assim, receio que a visita a Auschwitz e Birkenau, com as suas latrinas limpas e a refulgente cerâmica dos fogões de aquecimento, se pareça a uma visita aos jardins do castelo de Drácula.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Oświęcim

A ideia de pernoitar em Oświęcim* não é cara à maioria dos que visitam a Polónia. A cidadezinha, tirando o que se poderia chamar de atractivo macabro dos campos de Auschwitz e Birkenau, não parece ter outros predicados. Além disso, os guias publicados, as agências internacionais de viagens e os postos de informações no país sugerem em regra um tour directo, com autocarro de ida e volta, a partir de Cracóvia, cidade turística por excelência. O acesso por comboio regional não é difícil nem desconfortável (observação que, bem sei, resulta frívola no contexto), mas os polacos, os guias e as agências desconhecem ou desaconselham.  

Auschwitz constitui assim um dos vários programas da oferta de Cracóvia, a par das montanhas de Zakopane, da descida às minas de sal, do rafting no Dunajec, do crazy tour à cidade satélite comunista de Nowa Huta. Insere-se na rubrica «o que fazer» quando se está em Cracóvia à espera de dicas. Visita-se como se visita mais um castelo, com as suas próprias masmorras e histórias de tortura. Os turistas, quando têm a informação, a idade ou o carácter suficientes, lá adoptam ao sair do autocarro a devida expressão circunspecta, como quando visitam sem quererem parecer desrespeitosos um templo de outra religião. Se lhes pedissem, descalçar-se-iam ou cobririam a cabeça, mas muitos ficariam aborrecidos se não pudessem fotografar. No final das férias terão disponível para os amigos um relato da visita, intercalado em histórias de refeições deliciosas ou horríveis, dificuldades do câmbio monetário, noites em bares e picardias sobre os polacos e as polacas.

Não é portanto prevista ou sugerida uma estadia em Oświęcim (embora a cidade tenha vários hotéis, e um deles, o Hampton by Hilton, fique mesmo na entrada do pequeno centro histórico). Presumo que ninguém queira que os turistas se aborreçam a cismar numa pacata cidade a braços com a sua ocupação nazi e os seus blocos de habitação comunistas quando há tanta coisa excitante para fazer no resto da Polónia.

* Lê-se mais ou menos «óche-vién-tchim», daí «Auschwitz» em alemão.

No gueto de Varsóvia


1. Um grupo com umas três dezenas de rapazes e raparigas, morenos na sua maioria, participa de uma cerimónia no monumento que homenageia a revolta do gueto de Varsóvia. A certa distância, estrategicamente colocados nas quatro esquinas de um rectângulo imaginário, quatro jovens adultos, igualmente morenos, parecem apreciar o cerimonial, mas percebe-se pelos movimentos de cabeça, pelos auriculares discretos e pelo volume suspeito ao fundo das costas, sob a fralda da camisa, que montam guarda. Armada.
Não há polícia polaca (ou loura) nas redondezas.

2. No museu contíguo, cuja arquitectura do hall pretende evocar a separação das águas do Mar Vermelho para a passagem franca dos judeus perseguidos, os seguranças, mulheres e homens, são também morenos. E ríspidos, rudes, autoritários. Deslocados, pensa-se. O bilheteiro, não divergindo do aspecto judaico mas menos anguloso e mais bonacheirão e, ao contrário dos colegas na entrada, simpático e afável, pede desculpa por o preço dos bilhetes não estar visível e pede desculpa pela rudeza e antipatia da segurança. Sugere que se escreva à direcção do Museu. Sugere sempre, as queixas são habituais. Ele próprio tem dito aos chefes que essas coisas são pouco agradáveis.
Ficamos sem saber se ele é o judeu bom no sketch do polícia mau e do polícia bom ou se concorda genuinamente que é um pouco perturbante (ou pelo menos irónico, de uma ironia sem riso) que naquele museu se escondam os preços dos bilhetes e se recebam com autoritarismo rude os visitantes.
Em todo o caso, apropriamo-nos da sugestão da separação das águas e decidimo-nos pela visita.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As minhas aventuras dicionarísticas com o dialecto das Pedras


Herdei da infância palavras que durante muitos anos repeti e não questionei, talvez porque eram apenas usadas num contexto muito particular, entre conterrâneos, como termos de um dialecto.
«Grumo» era uma delas, talvez das mais representativas.
O meu pai, na infância, foi «grumo» e os meus tios foram «grumos». Um dia contei a um amigo que, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, os rapazes ficavam felizes se tinham a sorte de ir para «grumos»*.
O meu amigo perguntou que sorte era essa, desconhecia a palavra a não ser como sinónimo de coágulo. Será que eu queria dizer que antigamente os rapazes da minha terra cismontana ambicionavam ser marinheiros? «Grumo» como abreviatura ou petit nom de «grumete»?
Disse-lhe que não, o mar ficava longe, naquela altura.
Mas era feliz a associação de ideias entre «grumo» e grumete. Ambos os termos designavam o escalão mais baixo das respectivas carreiras, ocupado por crianças ou adolescentes.

Naquele dia, contudo, a existência pacífica da palavra «grumo» na minha linguagem ficou comprometida. Já não conseguia dizê-la sem me sentir embaraçado, como quem é apanhado a usar má pronúncia, a dar erros ortográficos.
Sempre achara, embora raramente pensasse nisso, que «grumo» era o aportuguesamento de uma palavra estrangeira mais ou menos homófona, como acontecia com tantas novidades que a modernidade importara, bicicleta, futebol, vocês sabem.
Fui ao Google munido especulativamente de «groom» e este remeteu-me logo para duas possibilidades na língua inglesa: noivo ou moço de estrebaria. De novo, a segunda acepção apresentava familiaridades — não de objecto, mas de grau — com a definição de um «grumo», mas não havia uma coincidência suficiente.
Fui aos dicionários online de Cambridge e de Oxford, e não havia ali novidades em relação ao Google. Aquele «groom» tinha mesmo um ar suspeito, mas os dicionários recusavam-se a delatá-lo. Os significados não descreviam o meu «grumo».

Tinha procurado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sem sucesso, a palavra «grumo». O dicionário está cheio de estrangeirismos e regionalismos, quem sabe o uso do termo não era mais generalizado do que o que eu pensava? Não era, pelos vistos. Mas o mesmo dicionário tinha surpreendentemente «groom», que descrevia como «palavra inglesa que significa criado; moço de recados». Ora, o nosso «grumo» era exactamente isso. Confirmava-se a origem, portanto.

Ficou ainda assim uma dúvida: mas então um dicionário português dizia que «groom» era um moço de recados em inglês e os dicionários ingleses não diziam que um «groom» era um moço de recados?

Neste confronto entre dicionários reparei que o de Oxford, no fundo da página, descrevia a origem de «groom» como estando no Inglês Médio (significando, exactamente, rapaz, criado masculino). O Inglês Médio, fui ver, inicia-se com a conquista normanda da Inglaterra. Voilà!, pensei então: os normandos eram mais ou menos franceses, não eram? Querem lá ver que o nosso «grumo» veio mas é da França?

Se tivesse pensado como um português da aurora do século XX e não como um português do século XXI, talvez me tivesse recordado que a maioria dos neologismos e estrangeirismos antigamente nos vinham de França e não de Inglaterra. Tinha poupado trabalho e este embaraço público. Bastava ter escolhido a língua francesa no tradutor do Google e lá estava: «groom: ‘carregador’, ‘mensageiro’, ‘paquete’». Ou, se optasse pelo Larousse: «Jeune employé d'hôtel, de restaurant, de cercle, chargé de faire les courses». Grumo, em suma.

Tudo isto a propósito de hoje ter visto no novo museu das termas das Pedras Salgadas (ou ‘Pedras Experience’) o meu pai lembrando em vídeo que tinha sido um «grumo» nos hotéis das termas, com as legendas a traduzirem comicamente para inglês que ele tinha sido um «Brumo».

Dando de barato que não foi o Google a legendar o vídeo, resta concluir que foi uma pessoa manifestamente alheia ao dialecto das Pedras.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A insensatez da espeleologia na adolescência

Há no parque termal das Pedras Salgadas uma mina cuja entrada é protegida por um portão com barras de ferro. Na minha adolescência, o portão estava geralmente arrombado e, numa ocasião ou noutra, a solo ou em banda, íamos ali espreitar, alternadamente estimulados por curiosidade espeleológica ou excitação viciosa, dependendo se tínhamos visto filmes de aventuras ou se ouvíramos comentários sobre actividades clandestinas.
 Logo a seguir ao portão, a mina divide-se em dois túneis. Um, muito curto, à direita, por onde se pode caminhar de tronco erecto, culmina numa pequena câmara, à época decorada com obscenidades, erros gramaticais e desenhos de genitália, a giz ou a carvão. A luz do dia não chega lá ao fundo, pelo que a arte rupestre então praticada precisou de iluminação artificial para se consumar. Isqueiros, presumo. Pelos vestígios acumulados no chão, também se consumavam ali outras actividades, relacionadas com cigarros e álcool, drogas e sexo. Não tenho, curiosamente, memória de ter visto nunca alguém entrar ou sair dali, pelo que no meu imaginário os sinais de actividade humana naquela mina ficaram sempre catalogados como vestígios arqueológicos, contributos para a antropologia mas de uma perspectiva histórica, diacrónica.
 Sobre o outro túnel, o da esquerda, não havia mitos ou lendas disponíveis, suspeitas lúbricas ou de traficância, nem informação histórica ou geológica que fosse partilhada connosco. A poucos metros da entrada, o túnel estrangulava-se como uma artéria entupida, deixando apenas um buraco com uns cinquenta centímetros de diâmetro, suficientemente estreito para demover mesmo os que, para a satisfação dos seus vícios, tremiam de timidez agorafóbica ou eram fanáticos da privacidade.
 De Inverno, o terreno baixo por onde se acede à mina, estava quase sempre inundado, mas o nosso espírito exploratório estava também em hibernação, à espera de melhores dias, pelo que não havia perigo de incursões. Já no Verão, quando tínhamos mais tempo e ânsias, o acesso era seco, franco, e a penumbra fresca convidativa. Muitas vezes íamos ali meter o bedelho, até que chegou o dia, como inevitavelmente tinha de chegar, em que a curiosidade foi maior do que o medo do escuro ou das consequências. Éramos quatro e talvez duas lanternas, subtraídas às escondidas das oficinas familiares. O terreno barrento estava suficientemente seco, no primeiro troço do túnel, para nos deixar algo descansados quanto à roupa e às mães. Depois de várias arremetidas e recuos, a testar com paus e pedras a consistência das paredes e tectos da mina, cruzámos finalmente, rastejando, o pórtico que separava a zona conhecida das entranhas insondáveis, munidos de varas curtas e fantasias longas. Do outro lado, o túnel apresentava-se mais transitável, e o tecto em arco, baixo, esculpido na rocha, revelava mão humana. Continuo a ignorar se a mina foi construída para chegar a algum aquífero subterrâneo, se estava relacionada com ancestral exploração de metais, mas na altura estávamos seguros de que era tão antiga e misteriosa quanto a presença dos romanos na península. Prosseguimos de cabeça baixa e olhar expectante, não necessariamente à espera de encontrar ouro, mas atentos a tudo o que ali brilhasse e se nos oferecesse. Havia algumas curvas suaves, algumas rectas curtas, crescente humidade a escorrer de paredes e tecto, uma distância que hoje calculo ser um quarto da que estimávamos na altura, até que surgiu uma câmara bastante mais ampla e alta do que o lupanar ou sala de fumo do túnel da direita e sem qualquer vestígio humano ou erro ortográfico visível. Éramos, notoriamente, os primeiros contemporâneos a chegar ali. Nunca tínhamos ouvido falar de expedições ao túnel da esquerda e agora comprovávamos o nosso pioneirismo. Não havia graffitis, beatas, garrafas, camisas-de-vénus, pénis ou vaginas. Nem sequer havia esqueletos humanos, o que era outra boa notícia: não se morria ali enclausurado.   
 Houve fascínio e regozijo, naturalmente, como se tivéssemos feito o percurso de Angola à contracosta antes de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo. E frustração, logo depois. A câmara não era o fim do túnel, mas este, no seu troço seguinte, descrevia uma curva tão apertada para o desconhecido e estava tão inundado que nos fez hesitar longamente e por fim adiar sine die a segunda fase da expedição.
 Havia, contudo, motivos de interesse naquela câmara. Desde logo uma entrada de luz no centro da abóboda que nos dava algum alívio, se pensávamos no perigo de ficar ali retidos por desabamento do túnel, e nos fornecia um novo plano: detectar pelo exterior aquela entrada de luz e medir assim o comprimento do túnel.
 Dois de nós voltámos atrás com essa nova missão. Um dos dois que ficaram, o mais ágil e destemido, propôs-se escalar a parede da câmara para acenar dali com a sua vara e nos auxiliar na localização do buraco.
 Demos com o buraco, depois de saltar o muro para o terreno contíguo ao parque, e, a passo, medimos uma assombrosa centena de metros da entrada até ali — o que significa que o glorioso túnel da minha adolescência, a aventura-mor daqueles anos, que tanta gabarolice nos permitiu e tanta censura nos trouxe pela inconsciência e insensatez, se resumia, certamente, a uns míseros vinte ou trinta metros.
Não consta que tenha havido outras expedições nem há relatos de crianças desaparecidas, mas as últimas vezes que passei ali o portão estava rigidamente fechado. O que se calhar se deve apenas à liberalização dos costumes que tornou desnecessária a visita ao túnel da direita.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Tílias

Quando saio do Club House, o empregado, que no alpendre enche de ar os pulmões, adopta subitamente um tom familiar para me dar conta de que lá fora cheira a tília.
Não costumo corresponder a estas tentativas de intimidade, quer por arreigada misantropia, quer porque geralmente elas têm origem em interlocutores que partem do princípio totalitarista de que qualquer um está disposto a partilhar (ou discutir) a alegria de um golo ou a frustração de uma derrota desportiva. Mas um barman que fala no cheiro das tílias merece outro trato. Digo-lhe que sim, já tinha reparado, é muito agradável. Verdadeiramente balsâmico. Ele concorda, inspira de novo e regressa ao seu longamente empatado Rússia x Bélgica.

Os antigos plantavam e veneravam tílias. Os modernos querem-nas derrubar, porque por vezes a seiva leitosa lhes suja os carros ou cola-se-lhes aos pés. São nisto mais fidalgos do que a velha fidalguia, que gostava das suas áleas perfumadas e sombreadas e estava disposta a pagar o preço. Aliás barato, se fizermos bem as contas aos lucros existenciais de ter uma tília por perto.

Os antigos e os modernos por vezes cruzam-se em espaços como o Parque Termal de Vidago. Não há decerto nada da velha nobreza nos actuais CEOs da Unicer, detentora do Parque, mas a ideia de que um dia um rei dormiu no Vidago Palace, alimentando o deslumbre plebeu por tudo o que possa ser associado à realeza, tem servido para manter bem tratado o parque termal. E bem tratado não apenas porque se não derrubam ali árvores, mas porque se tratam bem as que existem e projectam oportunamente (e plantam) as que hão-de substituir as que morram.

Cresci junto a um outro parque termal, o das Pedras Salgadas, com o seu próprio viveiro florestal e jardineiros instruídos para cuidar dos espécimes ancestrais e plantar os futuros. Quando lá passeio hoje, identifico algumas árvores que na minha infância eram apenas ideias apoiadas em estacas e regadas em regime quase terapêutico, como se alimentadas a horas regulares a copinhos graduados de água medicinal. Mas também noto pequenas ausências e ameaças de clareiras; sobretudo noto a escassez de plantações recentes, ao contrário do que acontece em Vidago. É como se em Vidago sobrevivesse um pouco daquilo que fazia as tílias sagradas em velhas civilizações germânicas e nas Pedras se preparasse para entrar o expedito e imbecil arrivismo contemporâneo, demasiado ocupado a aplicar cera no capô para notar o perfume no ar.

O Parque de Vidago, porque cuida, planeia e replanta, está quotidianamente a criar as condições da sua continuidade; a continuidade do seu estatuto, para quem liga a estas coisas, e a continuidade da sua nobre missão ao serviço da história, da arte ou da botânica. Ao serviço do puro acto de civilização que é passear à sombra ou ficar sentado à sombra a cheirar o perfume das tílias.

O Parque das Pedras, pelo seu lado, corre o risco de no longo ou médio prazo se assemelhar àquelas vilas e cidades que desistem espontaneamente de ter sombra e aromas verdes porque já se desabituaram de trazer fresca e arejada a cabeça e padecem de rinite opcional.

domingo, 17 de junho de 2018

Bicho Ruim

Num tempo em que a comunicação social, como a política, se tornou uma anedota trágica em busca de likes e audiências pavlovianas e em que as páginas sobre cultura (não falo de entretenimento, essa "cultura" de substituição com que tantos se consideram cumpridos) são inexistentes ou residuais, como os interesses estéticos ou os remorsos de quem dirige os media, sabe bem ter à mão um blogue como o do Rui Manuel Amaral:

http://bicho-ruim-blog.blogspot.com/2018/06/com-o-tempo-fui-me-habituando.html

sábado, 16 de junho de 2018

[Work in progress]

«— Houve um tempo em que também para mim era gratificante imaginar-me parte da aristocracia, não lho vou esconder — disse ele. — E ainda agora, se me distraio, faço poses em frente ao espelho e passeio-me pela casa de robe tal um viscondete entediado, como se o tédio fosse uma prerrogativa da nobreza.
O que talvez Rodrigo não estivesse disposto a conceder era que naquele momento ele agia com a prepotência de um monarca, detendo o seu interlocutor sem nenhuma razão válida senão forçá-lo a ouvir as suas confidências inesperadas e excêntricas.
— Pelo contrário, talvez seja nisso que a humanidade se irmane — disse eu, tentando ser jocoso. — O tédio como bem de acesso universal.
— Acha? Julguei que depois do regicídio só os poetas se entediavam.
— Ainda há poetas?
— Nem imagina como essa pergunta faz sentido.
— A literatura não é o meu forte.
— Eu era um. Poeta. Antes de ser esta espécie de hoteleiro.
— E o que aconteceu?
— A revolução plebeia.
— O que quer isso dizer?
— A democracia generalizada.
— Não percebo.
— O acesso das massas às tipografias, o fim dessa instituição adequadamente elitista que eram as editoras, a Chiado e a consagração da vida sem-vergonha, uma sucessão histórica de factores como quando os astros se alinham para ditar os augúrios, determinar as pragas.
— As editoras deixaram de se interessar por si?
— Eu deixei de me interessar por elas. E pelos leitores.
— Síndrome de Bartleby?
— Pensei que não percebia de literatura.
— Menti. Leio umas coisas, de vez em quando.
— Leu Vila-Matas.
— Não, li uns artigos onde se falava nisto. Achei adequado mencioná-lo.
— Um homem de recursos teóricos, apesar de tudo.
— Interessa-me o tema.
— O da renúncia?
— Já que põe as coisas nesses termos…
— Nesse caso, veja-me como uma espécie de paradoxo. Renunciei à literatura mas vim tomar posse da herança, veja lá. Se calhar não é um paradoxo, mas uma redundância. Uma dupla queda. Será que tomar posse da herança foi uma forma de sublimar a renúncia à poesia?
— Perturba-o essa possibilidade?
— Não! Encanta-me.
— É um provocador.
— Não, sou um homem angustiado.
— Não parece.
— Finjo.
— Como o poeta.
— Arrgh! Dispensemos evocações dessas.
— Desculpe, não resisti.»


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O pianista

Um naco de prosa inútil, de um escrito (provavelmente também inútil) em curso:


«Cheguei ao cinema para almoçar e havia apenas mais duas pessoas na sala, dois homens que partilhavam uma mesa. Olhei em volta antes de me interessar pelos clientes. O cinema fora demasiado pequeno em algumas noites da sua época de sessões semanais; agora era demasiado grande para restaurante e por isso a sala tinha sido dividida a meio com uma fila de estantes que suportavam vasos de trepadeiras e flores em vez de livros. O expediente resultava: mesmo que se conseguisse ver através das estantes, o efeito de salão de baile era atenuado, deixava os comensais confortáveis ainda que as restantes mesas estivessem vazias.
Em todo o caso, ao entrar ali senti-me a entrar num saloon ou numa cantina mexicana, dessas que se viam nos westerns, abrigos para os calores do deserto de Sonora, ou antes numa sociedade recreativa, com o seu pé-direito altíssimo e os seus grandes espelhos emoldurados em todo o perímetro. O local não tinha o charme dos cafés históricos europeus, ricos na monumentalidade e nos detalhes da sua decoração barroca ou neoclássica, ficava-se por uma bem-intencionada tentativa de reconversão de espaços e mobiliário, visível na desirmanação assumida de mesas e cadeiras, pratos e talheres.
Lembro-me de que havia ali um piano vertical e que em certas ocasiões chamavam um pianista para os saraus, o mesmo que nessa tarde ou na tarde do dia seguinte víamos na plataforma junto ao lago, estendido na chaise longue, que alugava ou lhe emprestavam, com um livro nas mãos de onde não tirava os olhos, excepto quando, de súbito, se levantava para mergulhar sem hesitações e nadar uns minutos sem pausas.
O pianista não era particularmente bonito nem atlético, mas o exotismo que lhe vinha de ser um músico, severo e compenetrado quando actuava, e a sua aparente indiferença em relação ao que havia à sua volta nas tardes quentes do lago davam-lhe a aura de um ser à parte, de membro de uma espécie distinta ou pelo menos de uma elite, que não se intimidava com a pequena aristocracia das minas. 
Digo que a sua indiferença era aparente porque em certos momentos percebia que ele nos observava, às raparigas, tentando escolher bem a ocasião, quando estávamos demasiado ocupadas connosco mesmas ou com qualquer outro assunto nas imediações. Contudo eu desenvolvera uma capacidade especial de detectar os olhares de terceiros, talvez porque os desejava, e de algum modo acabava por cruzar o meu olhar com o seu no exacto momento em que ele, intuindo ter sido descoberto ou tentando evitá-lo, voltava a dedicar-se ao livro.
Às outras intrigava-as que houvesse um homem ainda novo desinteressado delas, sempre absorto em leituras de volumes de aspecto anacrónico, alheio à nossa ruidosa jovialidade e às provocações teatrais e exibicionistas das minhas companheiras. Eu por vezes imaginava as outras raparigas como pavões com o cio descontrolado, permanentemente a abrirem em leque as suas espantosas e vastas caudas floridas, e achava-me recatada por comparação. Não estava porém menos intrigada ou magnetizada por aquele estranho que raramente trocava palavras com alguém da terra.
Num dos verões, levámos as provocações um pouco mais longe na tentativa de conseguirmos que houvesse algum comércio social entre nós e o pianista. Não nos tornámos compinchas nem ele alguma vez se juntou ao nosso grupo, mas começámos a trocar acenos nas chegadas e partidas. Da nossa parte, desejávamos mais e as tardes em que ele vinha eram passadas a descobrir maneiras de o provocar e de o obrigar a interagir. Falávamos alto de modo a que ele nos ouvisse e percebesse que certos comentários lhe eram dirigidos. Chamávamos-lhe Camões, por uma qualquer assimilação pateta — naquele nosso tempo a literatura e Camões ou Eça confundiam-se, eram tudo o que parecíamos saber do assunto —, e púnhamo-nos a recitar dramaticamente os primeiros versos d’Os Lusíadas. Numa das vezes aproveitámos o momento em que ele foi nadar — era um bom nadador e rapidamente se afastava de qualquer grupo que estivesse na água — e roubámos-lhe o livro que deixara pousado em cima da toalha, na sua espreguiçadeira. Na verdade não o roubámos, limitámo-nos a mudá-lo para uma cadeira vazia mais próxima do sítio onde nos encontrávamos, para ficarmos a observar a sua reacção e o seu desconcerto e o obrigarmos a dirigir-nos alguma palavra.
Era um volume vermelho de capas duras em que se podia ler na capa o título Os demónios. Mais tarde vim a saber que era um romance de Dostoiévski, que nunca cheguei a ler, mas na altura achei, influenciada pelas outras ou pela minha imaginação ainda adolescente, que era algum tratado de feitiçaria ou algo do género. Aquela descoberta excitou-nos ainda mais, adensava os contornos enigmáticos do pianista.
A nossa provocação — que era um gesto mais evidente e assertivo do que os que nos mereciam a maioria dos frequentadores do lago — teve um resultado quase pífio. O pianista limitou-se a olhar em volta quando regressou, localizando o livro de imediato (a capa vermelha sobre o branco da cadeira de plástico era facilmente visível), e demorou-se a secar-se com a toalha, como se ninguém tivesse mexido nos seus pertences. Quando decidiu recuperar o livro veio de olhos no chão e só depois de o agarrar, ao levantar-se, reagiu às nossas provocações (dizíamos-lhe em voz alta que estávamos enfeitiçadas, possuídas por um demónio, à espera que nos exorcizasse, coisas deste género) com um sorriso, um encolher de ombros, um gesto de impotência — e ruborizando.
Percebi nesse momento que o pianista era um tímido e não, como julgáramos, alguém mais snobe do que nós próprias. As minhas companheiras interpretaram a timidez à sua maneira, possivelmente para não se sentirem tão derrotadas, tão desclassificadas na sua capacidade de sedução, e determinaram ali mesmo que o pianista era maricas. Retrospectivamente, seria possível imaginá-lo à beira-lago como o protagonista de A Morte em Veneza, ensimesmado e suspirando por algum efebo que por ali andasse como uma reincarnação masculina da beleza, mas esse exercício está-me vedado porque tive a oportunidade de comprovar anos mais tarde que o diagnóstico de tímido era suficiente, e exacto, para o definir.»

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Revista de blogues

Por crónica falta de tempo, acompanho hoje poucos blogues. Mesmo da lista reduzida aqui na coluna da direita só consulto regularmente meia dúzia: o de Francisco José Viegas, pela escrita e as notas de erudição e raramente ou nunca pelas ideias (com frequência atrozes); o Âncoras e Nefelibatas, belo mas pouco produtivo nos últimos tempos, o Bicho Ruim, marginal, maldito e bem-querido, o Delito de Opinião, que visito cada vez menos por me desinteressar a política partidária que ali tem amplo debate e demasiado catecismo, o Jas-Mim, um dos poucos vila-realenses que conheço capazes de um diálogo culto com o mundo, o Marginal Ameno, do melancómico Nuno Costa Santos, o Ouriquense, de muito interessante autor, para mim anónimo, exilado nesse belo Alentejo de que Ourique, a vila, não é a melhor parte, e, por fim, mas no topo do que resta do meu vício bloguista, o Coração Acordeão, do magnífico prosador, diarista e ironista António Gregório. O António não é dealer que apareça todos os dias (ao contrário da pródiga e também excelente Ivone Mendes da Silva, no Facebook), e por isso a visita ao seu blogue é antecedida de alguma agonia, mas quando vemos que há nova entrada o sangue volta a correr-nos nas veias e no final da leitura já leva dentro química suficiente para nova reconciliação com o mundo.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Caderneta de cromos


[de um trabalho em curso]

«Suponho que toda esta treta dos retratos é uma desculpa para falar de mim, para escrever dissimuladamente pedaços da minha autobiografia. (Não é demasiado cedo para isso, há hoje quem publique memórias aos vinte e poucos anos e eu tenho o dobro da idade desses actores, músicos, futebolistas e demais punheteiros que, assisadamente, querem a posteridade quando dela podem desfrutar.) No que escrevemos sobre os outros traímos um pouco da nossa essência, a nossa vida é apanhada nos ricochetes, nos reflexos, nos apartes, nas considerações. Ou aquilo que julgamos ser a nossa vida. Ou aquilo que queremos que os outros julguem que é a nossa vida — não subestimemos a capacidade de o nosso inconsciente vaidoso ou protector nos dar a volta no momento em que gostaríamos de ser sinceros.
Coleccionar cromos — os nossos cromos, os cromos que tiveram o Oscar para o melhor papel secundário em alguns anos da nossa vida — é também uma forma de tergiversar. Com a caderneta preenchida, bum!, revela-se finalmente o ponto, a intenção oculta, a big picture, o verdadeiro retrato ou uma boa parte dele. Não de uma época ou de uma comunidade: o nosso. Falamos dos outros para falar de nós. Os meus cromos são parte de mim e coleccioná-los, colhê-los com tranquila metodologia e paciente periodicidade em vez de os agarrar em simultâneo, é adiar, aguardar, preparar o campo para a revelação. É também compor da melhor maneira o ramalhete, com minúcia de jardineiro japonês, seleccionando sem urgência as flores mais adequadas e rejeitando as que afectam negativamente o conjunto, as que podem perturbar o efeito que se pretende com o bouquet.
Acresce que também podemos tergiversar quando parecemos ter por objectivo a sinceridade, quando parecemos estar a revelar intenções ocultas. As intenções ocultas, por vezes, escondem outras intenções, na sobreposição de camadas que é o palimpsesto das nossas vidas. Uma hora no confessionário pode não ser mais do que uma hora de pausa ou de espera, como se tivéssemos entrado na igreja para fazer horas, para nos abrigarmos da chuva ou para tomar fôlego, para construir um alibi. Confessar um crime para esconder outro: o mais inconfessável, porque mais grave, mais comprometedor ou simplesmente mais embaraçoso. Podemos preferir alguns anos de prisão ao embaraço de certas revelações. O sacrifício pessoal não é apenas uma prerrogativa dos heróis, também os cobardes por vezes escolhem o que parece ser o maior sofrimento porque, na sua perturbação, no seu trauma, na sua insanidade temporária ou definitiva, avaliam mal as coisas, erram na ponderação, na hierarquia das prioridades e submetem-se a um mal maior pela incapacidade de aceitar o mal menor. A «fuga para a frente» é uma táctica que muitos de nós usamos mais vezes do que estamos dispostos a aceitar.
Grande vai o exagero, em todo o caso. Não tenho crimes a confessar, apenas o de estar para aqui a adiar o momento em que terei de falar de Juliana. É esse o ponto. Imaginem um daqueles filmes históricos, épicos, que iniciam com grandes planos de batalhas ou êxodos de massas, as multidões inicialmente vistas a vol d'oiseau (ou de drone, nos dias que correm), depois a câmara a deter-se por momentos num ou noutro figurante, a revelar a seguir as castiças personagens secundárias, até que finalmente encontra os protagonistas e mostra os seus rostos em profunda comiseração ou com semblantes altivos no meio da miséria humana. É assim esta minha caderneta, um plano-sequência à procura de Juliana no meio da pequena multidão da Serra Talhada.»

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Artes, públicos, apoios


A propósito do debate gerado por nova falha de mais um modelo do apoio às artes performativas em Portugal — com manifestações de solidariedade mas também de inveja, com indignações ao rubro pela escassez do apoio e indignações não menos afogueadas por o Estado ainda se dar a esse luxo claramente acima das nossas possibilidades e interesses —, relembro um texto de 2014, publicado aqui no blogue. Pode ser lido neste link: http://canhoes.blogspot.pt/2014/06/deixem-o-pimba-em-paz-as-artes-e-o.html

Se tivesse tempo (e ânimo) desenvolveria melhor uma ou outra ideia, corrigiria uma ou outra passagem, acrescentaria outras reflexões, dados (e culpados). Sobretudo corrigiria, com matéria adequada, o tom pessimista, que hoje, passados quatro anos e várias experiências vividas, sei não ser uma inevitabilidade. De forma nenhuma.



sábado, 24 de março de 2018

a violenta e cruel natureza da sobrevivência


[de um trabalho em curso]

«Aos domingos, a minha mãe era capaz de passar as primeiras horas da manhã a ler um livro de poesia e levantar-se a seguir do seu sofá junto à janela para ir matar um coelho ou uma galinha para o almoço. Aos coelhos segurava-os pelas pernas traseiras, de cabeça para baixo, e aplicava-lhes uma pancada seca na nuca com a mão em cutelo. Por vezes precisava de meia dúzia de pancadas e, entre os golpes, o animal ficava a contorcer-se, em agonia e espasmos. Às galinhas metia-as debaixo do braço, dobrando-lhe o bico para o pescoço com a mão esquerda, de modo a expor-lhe a parte de trás da cabeça onde iria cortar com uma faca até à morte do animal. Não me recordo — porque sempre procurei fingir que aqueles episódios da nossa vida não existiam —, mas julgo que este método a haveria de sujar de sangue. O coelho ou a galinha eram a seguir despidos da pele ou das penas na banca da cozinha. Depois do choque insuportável que era para mim a morte dos animais, o processamento da galinha era-me menos dorido, se calhava passar na cozinha durante a preparação. As galinhas eram menos consideradas, não só na nossa casa, tratava-se de um aspecto cultural generalizado. As crianças eram levadas a ver os pintainhos, mas depois de eles crescerem e ganharem penas, se assemelharem às galinhas adultas, não recebiam mais afectos, eram simplesmente tolerados à solta pelo quintal. Os coelhos, contudo, tinham um estatuto próximo dos animais de estimação. Embora raramente saíssem das suas coelheiras, onde eram mantidos até ao dia em que fossem chamados a ser a iguaria na refeição, estabelecíamos com eles uma relação mais duradoura. Eu não percebia como depois a minha mãe era capaz de lhes pegar com toda a frieza ou indiferença para os espancar até à morte. Uma das vezes em que inadvertidamente entrei na cozinha a meio do sacrifício, reconheci o bicho e fiz uma cena de choro e berraria. A minha mãe procurou com serenidade explicar-me que aquela era a ordem natural das coisas. Perguntou-me se eu não gostava de comer coelho estufado, que era o prato que iria preparar (e sabia que eu gostava), e convidou-me a ajudá-la a tirar-lhe a pele. Fiquei horrorizada, mas simultaneamente paralisada. Enquanto a galinha depenada simplesmente se assemelhava a um frango assado que não tivesse passado pelo forno, um pedaço de comida sem relação para mim muito óbvia entre o que via na cozinha e o que dias antes vira no quintal, o coelho esfolado revelava a natureza dos corpos vivos, uma proximidade assustadora com a consciência que tinha do meu próprio corpo pelas imagens que espreitava em livros de ciências. Enquanto a minha mãe ia puxando a pele, que saía inteira como quando me tirava as camisolas de lã pela cabeça, ia-se revelando a anatomia do animal e os tecidos musculares, os ossos a aflorar — uma infra-estrutura biológica, se assim se pode dizer, demasiado mamífera para que eu pudesse escamotear a similitude com a minha própria fisicalidade.
E contudo esses momentos violentos e insuportáveis não chegavam para que eu ficasse com uma ideia negativa da minha mãe, para que sentisse menos afecto por ela. Tacitamente, fomos acordando que eu evitava a cozinha nessas manhãs e que ela não voltava a tentar convencer-me da naturalidade do abate dos animais. Mais tarde tornei-me vegetariana, mas durante muitos anos ainda comi com prazer carne, apaziguando a minha consciência com a ideia (fantasiosa) de que o país evoluíra e os métodos de abate de animais eram então indolores e os bichos eram conduzidos ao matadouro com tacto, sem stresse, depois de terem passado os dias da sua curta vida em quintas bucólicas que sabia serem meras e escassas excepções. Criei com o mundo uma relação semelhante à que tinha com a minha mãe, preferindo ignorar o lado negro ou a violenta e cruel natureza da sobrevivência.»

quarta-feira, 14 de março de 2018

Sociologia de supermercado #2

— Quando for grande quero ser um génio.
— Já tivemos esta conversa.
— Quero ser como o Einstein.
— Esse não, escolhe outro.
— Porquê, mãe?
— Os génios não têm grande futuro.
— Mas eu quero ser o Einstein.
— O Einstein morreu sozinho, pobre, na desgraça.
— Mas foi um génio, eu li.
— Não insistas.
— Vou ser o Einstein.
— Na escola não têm livros sobre o dono da Sonae, por exemplo?
— Sonae? O que é Sonae?

Sociologia de supermercado #1

O cliente pousa as laranjas no tapete e a caixa tenta equilibrá-las na balança à sua frente.
— Não havia lá sacos?
— Julgo que sim, mas não são necessários, não é?
— Ah, você é anti-sacos…

sábado, 10 de março de 2018

O Professor Passos

Não assinei o Público online porque o jornal me pedia mais dados sobre a minha vida do que o que eu estava disposto a dar-lhe e por isso só consegui ler o lead e um parágrafo do artigo de Manuel Carvalho sobre a polémica do Professor Passos Coelho. Contudo, a não ser que o resto do artigo esteja em contradição com a sua introdução (o que seria absurdo), não julgo que me precipite ao dizer que discordo totalmente de Manuel Carvalho.

Leiam primeiro a sua argumentação:

«Com excepção da vergonha da Tecnoforma, nada na vida de Passos Coelho o impede de ser docente em universidades nacionais.

A polémica dos convites a Passos Coelho para dar aulas em três universidades só merece mais do que uma linha de aversão porque reflecte um preconceito aberrante e expõe à vista de todos uma atitude mesquinha e perigosa. O assunto não chegou ao grande debate nos jornais (ficou-se pela pequena conversa de café ou pelas redes sociais) porque fica mal expor ao grande público a arrogância de classe ou o sectarismo ideológico mais básico que alguns dos críticos manifestaram. Mas, mesmo na penumbra, a onda não deixa de ser reveladora e irritante. O sectarismo que empurra uma certa esquerda, faz hoje de Passos Coelho o que a direita fez com Mário Soares no Verão Quente.»

Em primeiro lugar, a própria introdução do artigo anula toda a argumentação que defenda a contratação de Passos, a não ser que a lógica para Manuel Carvalho seja uma batata. Segundo as suas próprias palavras, há pelo menos uma coisa que de facto que impede a contratação de Passos, que é, diz Manuel Carvalho, a «vergonha» da Tecnoforma. A nódoa da Tecnoforma pode ser «excepcional» na vida do ex-PM, mas existiu e até Manuel Carvalho na sua redacção a considera na verdade impeditiva da sua contratação como professor equiparado a catedrático. Se não queria dizer isto (e provavelmente não queria), Manuel Carvalho devia cuidar mais dos textos que escreve. Poderia ter dito, por exemplo, que «Passos Coelho apenas teve um erro, mas esse erro não é suficiente para impedir a sua contratação». Falando assim, MC revelaria mais condescendência com as vilezas dos nossos chico-espertos da política, mas estaria mais apto a ser literalmente coerente com a sua aceitação da contratação.

Já eu estarei decerto a ser mesquinho com a análise semântica do artigo, mas a acusação dura de Manuel Carvalho ao «sectarismo ideológico» dos críticos, tantos deles professores universitários, exigia-lhe cuidado com a forma como se expressa. Sei que a o artigo de MC, antes de ser uma defesa de Passos, pretende ser um ataque ao tal «sectarismo ideológico» das universidades. Passos é apenas o pretexo, e MC não se importa de, usando-o, defender a honra de Passos. (Também eu, na verdade, estou a usar o excerto do artigo de MC como desculpa para falar da contratação de Passos, por isso estamos quites.)

Mas eu, ao contrário de MC, não desvalorizo «a vergonha» da Tecnoforma. Parece-me reveladora de um carácter (aliás confirmado em vários outros momentos de mentiras e hipocrisias na brilhante carreira do homem). Escrevi em tempos (aqui e aqui, por exemplo) que Passos e Sócrates eram nalguns aspectos essenciais intermutáveis. Postos nas circunstâncias do outro, cada um deles teria agido de forma basicamente semelhante. Com a conjuntura a favor, um Passos pré-Troika teria trazido para o Estado a visão empreendedora que usou na Tecnoforma, só que com maior redistribuição de dinheiro público. Já Sócrates, instigado pela mesma troika que excitou Passos, teria liderado diligentemente um período de austeridade reformadora, talvez com menos moralismo à mistura, mas com um resultado de igual desprezo pelas pessoas comuns e favorecimento de privados. Parece-me por isso natural que se o dinheiro do Estado tiver permitido a um o mestrado parisiense permita agora ao outro a cátedra na Universidade de Lisboa. Certos episódios da vida destas duas figuras nacionais são as duas caras da mesma moeda com que se vende a dignidade e compra a desfaçatez.

Em segundo lugar, não me esqueço de que ouvi Passos enquanto Primeiro-Ministro acusar algumas universidades de manterem cursos sem procura e sem pertinência apenas para «os senhores professores» poderem dar aulas. Cito um post que sobre isto escrevi à época:


Ora, o que mudou depois da saída de Passos Coelho do Governo? As universidades públicas já não são censuradas por Coelho por quererem alargar o quadro de docentes? (Julgo que não preciso de dizer que alargar é mais grave do que manter no catecismo de moralização da função pública seguido por Passos.) Agora já podem? Em todos os casos ou só no dele?

Vejamos também a coisa por outro ângulo, não necessariamente ligado a austeridade passista: o ISCSP passou de repente a ter uma necessidade premente de professores? Já teria esta vaga antes e não a tinha conseguido preencher? O Instituto andava desesperadamente à procura de alguém com o perfil de Coelho e ainda não o tinha encontrado? O Presidente do ISCSP (Manuel Meirinho, eleito deputado nas listas do PSD no ano em que Passos ganhou o Governo) não tem nada que ver com a identificação desta súbita necessidade de um professor com as características de Passos Coelho?

Já li por aí que houve antes casos similares (dizem que o de Vítor Constâncio é um deles) e, acusam os defensores de Passos, as pessoas não se queixaram como agora. Este é o habitual argumento idiota que exige igualdade permanente nas reacções e críticas, como se o mal de uma coisa dependesse de ele ter sido identificado e criticado em igual medida noutra. Como se fosse desculpável o erro de alguém por não se ter denunciado um erro semelhante de outra pessoa. A lógica deste género de pseudo-argumentação (e o prefixo pseudo é usado aqui adequadamente, porque só em mentes infantis ou perturbadas por cegueira ideológica ou clubística aquela espécie de relativização constitui um argumento) é a mesma que poderemos aplicar, cinicamente, às vítimas da estatística que não tenham tido a sua parte do frango na célebre enunciação: se em cada duas pessoas uma comer um frango, em média cada pessoa come meio frango. Ou, melhor ainda, no poema de Cesariny: «Que afinal o que importa não é haver gente com fome / porque assim como assim ainda há muita gente que come».
Estes invocadores dos «casos passados» querem, num primeiro momento, fazer-nos crer que se um pecado é comum talvez ele não seja na verdade pecado, estamos enganados no juízo que fazemos sobre a pessoa que defendem. Mas logo a seguir censuram-nos ferozmente por não termos sido lestos a denunciar o erro anterior que lhes serve de relativização, num crescendo que termina invertendo as coisas: o verdadeiro erro a merecer punição foi o anterior, o do elemento do clube contrário, que passou incólume porque as pessoas então se distraíram ou não acharam mal por serem do mesmo clube. Não é só proporem que se cumpra uma cronologia para a crítica e a punição (que as coisas se façam pela ordem dos acontecimentos), ou defenderem uma interdependência de penas (pune-se o último se se punir o primeiro): é tentar que percebamos que o erro cometido pelo seu correligionário não é um erro, porque, ao contrário dos adversários, este e o seu alvo cu excluem-se por unção divina da natureza fisiológica descrita no «Soneto Ascoroso» de Bocage. E terminam com frequência já só violentamente indignados pelo erro anterior, acreditando genuinamente, no seu fanatismo, que não houve o erro actual.
Alternativamente, esta gente que lembra os casos passados foca-se em nós próprios para nos denunciar por termos estado calados e agora falarmos. De repente, mais uma vez, o problema não é Passos ter a magna impudência de aceitar um tacho numa universidade pública, é nós não termos constância na atenção e na crítica, é não sermos polícias de plantão permanente, desde o nascimento até à cova, termos a insolência de nos levantarmos só ocasionalmente e logo por azar quando o erro é cometido por um camarada de quem nos denuncia. Esqueçam ter havido um pecado: o que verdadeiramente abala as fundações da nação é a nossa indolência (e de certo modo é, mas não pelas razões que nos acusam). Esqueçam Passos, o problema somos nós.
Vasco Pulido Valente, que era acusado pelos seus detractores de não ser exaustivo na crítica, de haver partes do país e dos seus oito séculos de história que ele, cronista parcial, estrategicamente poupara (o que é aliás improvável), tinha um manguito retórico sempre pronto como resposta, e algumas vezes li o seu rosnado: fossem chatear o Camões, que ele escrevia sobre quem queria e quando queria, não era obrigado a cumprir quotas.
Um resumo para os utentes do argumento idiota: a desfaçatez de Passos Coelho (é deste caso que agora tratamos) não depende da desfaçatez de todos os outros que aceitaram prebendas semelhantes e muito menos depende da actividade e da coerência daqueles que o criticaram. De resto, a coerência não se mede contabilisticamente nem tem por base a estatística. E uma maçã não deixa de ser uma maçã por não termos dado uma dentada nas outras todas.

Em terceiro e último lugar, Passos foi o responsável por, entre outras bondades, uma lei que determinou a extinção de um conjunto de empresas municipais, com o consequente despedimento dos seus trabalhadores, sem se preocupar se o trabalho que eles faziam era necessário ou não. Tendo-se verificado que, em tantos casos, o trabalho era necessário, e após pressão sindical e de um ou outro partido, lá concedeu que se acrescentasse à lei um artigo que permitia às Câmaras abrirem concurso (na primeira fase limitado à função pública) para esses postos de trabalho e, numa demonstração de impressionante generosidade, fossem considerados elegíveis para se candidatarem os antigos trabalhadores das empresas municipais, muitos com dez anos de serviço. Mas a generosidade do então Primeiro-Ministro não foi ao ponto de permitir que esses trabalhadores mantivessem a categoria e a posição remuneratória anteriores: havia moralização a fazer no país e por isso os trabalhadores que quisessem continuar nos seus postos haviam de passar pela humilhação do concurso e, caso vencessem, a de serem integrados na posição mais baixa da carreira, não servindo de modo algum o conhecimento, a experiência adquirida e a avaliação de dez anos de trabalho para assegurar a manutenção do lugar, da categoria e da remuneração.

Perguntam-me se há algum problema na contratação do Professor Passos com vencimento equiparável ao de professor catedrático? Problema nenhum, por que havia de haver?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Ave-Rara

Ave-Rara teve mais profissões do que anos de vida. Uma boa parte delas exerceu-as ao volante, em múltiplas variações de motorista, com uma almofada sobre o banco para que a sua estatura de minorca o não impedisse de conduzir o próprio destino. Foi, por exemplo, condutor de camionetas de gado, transportando vacas das belas e mansas propriedades do planalto para o matadouro decrépito, sujo, impiedoso e talvez ilegal que funcionava nos arrabaldes da cidade. Fazia essas viagens com a mesma jovialidade brejeira com que, anos mais tarde, levava ao centro de saúde velhos dos bairros sociais no seu táxi a cair de podre, quase os matando de riso quando, provocatório, lhes dizia exigir pagamento adiantado não fosse dar-se o caso de lhe morrerem a meio da viagem ou quando, uma semana depois, se mostrava teatralmente surpreendido por os ver ainda vivos, em mais uma ida na sua opinião já inútil ao médico. Muitos daqueles velhos e velhas, devidamente maquilhados e quem sabe agradecidos pelas viagens anteriores, foram depois por ele de novo transportados, então ao volante do carro funerário que aceitou conduzir em part-time, não parecendo comover-se mais com a sua carga de humanos mortos do que com as carcaças de gado que distribuía pelos talhos depois de ter levado as reses ao matadouro e ter trocado a camioneta por uma carrinha com caixa refrigerada. Em cada ramo de negócio ele procurava oportunidades ao longo de toda a cadeia de produção.
A sua vida ao volante foi quase sempre desenvolvida nas proximidades da morte. Quando andou a transportar flores — antes da temporada em que conduziu, bêbado, a ambulância dos bombeiros —, sabia que muitas delas se destinavam a coroas para velórios e funerais, mas nessa altura preferia evocar o lado primaveril da carga, escolhendo sempre uma flor para pôr na orelha (um improvável hippie, que nos anos de agricultor usava na mesma orelha hortelã para afastar mosquitos), e dedicando atenções, piropos e ramos coloridos às moças com que se cruzava. Nas viagens entre a Suíça e Portugal, a transportar emigrantes quase sempre com o trágico Graciano Saga no leitor de cassetes, teve acidentes, alguns graves, mas teve sobretudo, ninguém duvidasse, histórias espantosas ou heróicas de sobrevivência — que contava enfaticamente, se necessário subindo de repente para cima das mesas do café com os seus óculos escuros à John Lennon e sapato preto de fivela, como se se preparasse para declamar os Lusíadas à turba ignorante.
Foi também, jurava que com sucesso, entre outras coisas, trolha, serralheiro, guarda-nocturno, fabricante de queijos, jardineiro, ajudante de veterinário rural, fiel de armazém, roadie de um conjunto de baile, porteiro de discoteca, cobrador de água, carteiro num Verão, canalizador, bate-chapas, auxiliar de enfermagem, encarregado de limpeza numa escola, telefonista da Câmara (nunca conseguiu efectivar na função pública por indecisão doutrinária), caixa numa tabacaria, gerente de um bar de snooker e flippers, DJ numa danceteria muito antes da febre do quizomba (técnica que não dominava), distribuidor de pizzas nos anos negros de Passos Coelho e, por fim (mas não no fim), motorista e guarda-costas de um velho traficante de drogas e armas do Barroso, antigo informador da Judiciária.
Aos cinquenta e cinco morreu, ele diria que por não saber mais o que fazer, mas foi revelado que a causa estava entre uma hepatite e uma cirrose. Porque o Ave-Rara bebia. Muito. Quando o conheci já ele tinha aquela alcunha, mas só anos depois soube que ela tinha evoluído, com coerência semântica, de Canário, o epíteto original, e Papagaio, o que vigorou nos primeiros anos da sua idade adulta. É que ele tinha cantado o fado, mal acompanhado à guitarra folk, em acordes esgalhados, por um aprendiz de torneiro mecânico que andava na Escola Industrial e mais tarde viria a idolatrar Jerónimo de Sousa. Nem cantaria mal, a não ser que o tivessem alcunhado por ironia, o que era, aliás, mais provável, conhecendo-se a crueldade do povo. Já Papagaio não havia dúvidas de que era apodo exacto, essa sua fase eu conheci, quando ele enchia todo o ar que nos rodeava de palavras, muitas vezes indiferente ao seu significado ou a uma qualquer lógica que as pudesse relacionar umas com as outras. O Ave-Rara, antes de ser oficialmente uma excentricidade, era um incansável e cansativo utente da língua portuguesa, com inclinação para o seu lado mais vernáculo e obsceno.

[work in progress]

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A nova direita portuguesa, o Correio da Manhã e a aceitação do país


Há duas décadas os blogues vieram permitir um exercício público de opinião livre das rotinas da imprensa tradicional. A liberdade e o individualismo favorecidos pelo novo medium e, claro, as décadas entretanto passadas sobre o 25 de Abril e o Estado Novo estimularam o surgimento de uma nova direita no espectro político português. Esta direita — educada, culta, cosmopolita, frequentemente com sensibilidade estética e artística, aparentemente menos preconceituosa e mais tolerante (com ferozes excepções) — foi ganhando espaço mediático no país e fazendo sair do armário (no sentido ideológico) alguns intelectuais mais velhos que por ai pairavam sem pouso doutrinário totalmente definido, receosos de dizerem o que realmente pensavam ou sem certezas quanto àquilo que realmente pensavam (ou desejavam pensar). Este esclarecimento ou esta «normalização» política foram positivos, por permitirem que algumas pessoas assumissem ideias de direita sem receio de serem conotadas com o fascismo salazarista. A democracia e o debate político cresceram.

Contudo, relegando alguma da sua formação cultural mais esclarecida e universalista, uma parte desta nova direita cedo se deixou embevecer pelo pragmatismo, pelo cinismo, pelo messianismo ou simplesmente pela bravata neoliberal que nos EUA vinha dominando o Partido Republicano. (Há um adolescente lado cowboy nesta direita e no seu frequente louvor dos duelos e bengaladas queirosianas ou oitocentistas, com correspondência num certo baronato socialista.)
Os primeiros sinais disso foram, logo no início, o espantoso apoio à invasão do Iraque em 2003. Se fosse a esquerda a demonstrar tal grau de ingenuidade e crendice (ou de oportunismo), teria sido simplesmente demolida (e bem) pelo pensamento sofisticado da nova direita. No entanto, ainda hoje várias figuras dos blogues (agora nos jornais, na televisão ou nos partidos) se revelam incapazes de reconhecer o erro cometido num momento que foi determinante na definição do mundo que hoje temos.

Mais recentemente, esta nova direita, já constituída pelos bloggers e pelos «velhos» saídos do armário, encontrou no Correio da Manhã o seu fetiche de mundivisão, o seu oráculo político-religioso. Com esta direita intelectualmente desenvolvida, o jornal deixou de ser um órgão sensacionalista, um mero tablóide a fazer o que os tablóides fazem, para passar a ser o órgão que melhor informa sobre o que realmente se passa no país, o que melhor revela o que é Portugal: a sua corrupção política, os seus crimes, a sua violência quotidiana — a podridão nacional, em suma.

Poder-se-ia pensar que havia neste contentamento com o desvelar da negra alma lusa um desejo de correcção, de purga, de construção de um país mais honesto, menos violento, mais justo, mas isso são pensamentos de esquerda. A nova direita portuguesa não escreve no Correio da Manhã nem cita o Correio da Manhã para que acordemos, para que nos vejamos ao espelho e nos envergonhemos com o que somos. Nada disso. Na verdade, a nova direita quer que conheçamos o país para que o aceitemos como é. Tirando um ou outro caso político desenvolvido no jornal, em que a imparcialidade é conveniente ao próprio statu quo da nova direita portuguesa (nos outros casos geralmente cala-se ou veste-se de virgem), e, portanto, é aí conveniente o apelo à justiça, à moral, ao apuramento da espécie, a nova direita não fica realmente indignada com a imoralidade, a injustiça, a violência, os crimes, a crueldade. Adoptam, alguns dos seus espécimes mais tendentes à literatice (como de resto o velho centro-esquerda), a atitude do aristocrata, espreitando das janelas altas do seu solar as ruas enlameadas, levemente horrorizados, mas apenas como introdução teatral à constatação inconsequente de que o país é uma choldra. Nos outros casos é simplesmente social-darwinista — se se sabe do lado certo da evolução. (Neste campo é comum observar-se como alguns jovens direitistas que saem de bairros, zonas ou grupos sociais deprimidos para o sucesso académico, económico ou intelectual se revelam os mais fervorosos na defesa não declarada de que é natural uma luta das espécies e temos portanto de ser duros na nossa vida, nada de mariquices.)

Não obstante fingir-se por vezes paladina de um povo essencialmente «bom e honesto» que só existe na sua cabeça e que, sem rir, tenta fazer coincidir com o leitor comum do Correio da Manhã, a nova direita portuguesa tem, nalguns casos apenas porque uns quantos pensadores de eleição o tiveram, um crónico pessimismo antropológico (predisposição que, em minha opinião, é aliás altamente aconselhável a qualquer pessoa sensata), e conclui, cinicamente, mas sem verdadeiramente o afirmar, que o que importa é então que conheçamos o país através do Correio da Manhã —não que nos indignemos com o país que o Correio da Manhã revela. Aceitarmos o país não nos resolve os problemas, mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que há coisas a que chamamos problemas que são apenas características, meras constantes históricas e sociais. Se as aceitarmos, talvez nos possamos defender melhor delas (diz a direita quando é piedosa ou residualmente empática) ou, melhor ainda, talvez nos resignemos a conviver com elas.

Julgo que não há estudos universitários que analisem a estatística da opinião publicada (e devia haver), mas, consultando a Internet ou os jornais que por inércia vamos acumulando em casa (e para voltar a um assunto que me é caro), podemos chegar à conclusão de que a direita é mais veloz e prolixa a premir o gatilho contra os linchamentos de carácter por suposto assédio sexual do que o tem sido contra a violência doméstica — ou seja, o machismo violento e demasiadas vezes fatal. (De que, aliás, o seu Correio da Manhã quotidianamente nos informa.)

Seria errado propor que este desequilíbrio de opinião ou de ênfase acontece porque a direita se identifica mais facilmente com os impulsivos perpetradores da violência doméstica (ou com os alvos dos linchamentos revanchistas) do que com as vítimas de assédio, tantas vezes frágeis e impotentes, propícias a sucumbir na evolução das espécies. Não é isso. Acontece é que a violência machista, mesmo que sabidamente nefasta, é um continuum histórico, enquanto a «revolta feminista» é, precisamente, uma tentativa de quebrar o continuum histórico. E os conservadores sempre se incomodaram mais com as rupturas do que com as injustiças*.


* O mesmo se passa no plano económico, com as imoralidades actuais do capitalismo a merecerem menos indignação do que qualquer modesta proposta de contenção das desigualdades.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Da mediocridade

A habitual mediocridade portuguesa, que nunca acredita que o serviço público de qualidade, além de um dever, pode ser sustentável e até popular, acaba sempre por cortar as pernas a quem tem as ideias, a competência, a ousadia ou o talento para o fazer. Se não tem maneira de lhe recusar os meios (o que geralmente tem, da forma mais hipócrita), rapidamente encontra a cláusula que permite aos invejosos, incompetentes, cínicos ou simplesmente imbecis afastar os indesejados. E Portugal seguirá provavelmente, de novo, para serviços públicos que, quais comissões de festas, tratam de assegurar ao povo o seu pão e circo. O que, no caso da RTP, significará novelas, futebol e pimba.

[A propósito da saída de Nuno Artur Silva da direcção da RTP.]

https://www.publico.pt/2018/02/09/sociedade/opiniao/rtp-20152018--o-que-fizemos-1802555]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

O arcanjo Gabriel

Lemos mais esta pérola no Observador e damos por nós a antecipar o divertimento de uma recensão ainda melhor quando um dia este cavalheiro ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo — considerando por mera hipótese que as suas convicções lhe permitirão a ousadia intelectual de o fazer.

http://observador.pt/opiniao/como-saramago-forcou-pessoa-a-converter-se-ao-comunismo-49-anos-depois-de-morto/

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Best-sellers à portuguesa

Não vi nenhum dos filmes da trilogia Balas & Bolinhos — mas apenas porque não calhou (no que se refere a cinema sou muito diverso e laxo na disposição). Li porém com curiosidade uma entrevista do realizador, que agora lança Bad Investigate, por causa da frase em destaque no jornal: «Ando com este saco de pedras às costas por ter levado pessoas às salas de cinema.»

Em Portugal os autores não vivem geralmente felizes com o sucesso comercial. Não porque os repugne o êxito comercial (os que o têm em geral procuram-no com diligência e método), mas porque gostariam de ter igualmente o aplauso da crítica e dos seus pares. No cinema, como no teatro e na literatura, temos os nossos mártires vivendo vidas amarguradas porque levaram o público às salas, às livrarias ou aos multiplexes e há quem com desfaçatez não veja nisso motivo de regozijo. Como consequência, os nossos best-sellers tornam-se críticos ressentidos das abordagens não comerciais.

Diria que Luís Ismael, o realizador nortenho, não constitui uma excepção. Na entrevista até procura ser magnânimo com quem faz «cinema de autor» e afirma que ele próprio não quer andar toda a vida a fazer o género de cinema que tem feito. Mas, como se fosse imperiosa a retaliação àquela personalidade que numa gala dos Globos de Ouro «se levantou para ir receber o prémio» e «foi criticar quem fazia cinema comercial», não resiste a deixar, entre insinuações e contradições, algumas frases assassinas que desdizem a magnanimidade e o aproximam do bravo grémio de José Rodrigues dos Santos, Miguel Sousa Tavares, Leonel Vieira ou Filipe La Feria, embora ainda não tenha a arrogância destes.

Ismael acha que «as pessoas que, ano após ano, recebem milhares e milhares de euros de apoios e subsídios têm a obrigação de tratar bem o público português.» E tratar bem o público português não é necessariamente realizar um bom filme, é ir ao encontro das expectativas «que o público tem nele». Por exemplo: «Se o cinema atrai, hoje, sobretudo os putos, é importante perceber que os cinco euros deles têm de ser respeitados.»

Não é preciso citar a entrevista toda (nem ir ver os filmes) para se perceber que o discurso de Ismael, como o dos autores atrás referidos, busca no número de espectadores um apoio para a sua legitimação artística — o que há uns anos teria talvez certa simpatia do ex-auto-despromovido-secretário de estado Francisco José Viegas. E o número de espectadores não precisa de estar necessariamente ligado aos méritos intrínsecos da obra, mas à simples virtude de esta cumprir o que as massas esperam dela.

Não há muito espaço neste tipo de discurso para a reflexão sobre como respeitar a diversidade de públicos e expectativas, sobre a funesta estandardização do gosto promovida pelos media e não obstada pela escola e pela universidade, muito menos (por definição) pelos blockbusters. Não há, naturalmente, espaço para discutir como estimular pessoas para ver filmes que não sejam feitos a pensar nos cinco euros ou nos cinco neurónios dos «putos». Mas há, como sempre há, bastante espaço para a mágoa e o ressentimento: «Por isso, se não critico os meus colegas que defendem o cinema de autor, o que critico é esta visão preconceituosa, limitada e que se tem por intelectual, que às vezes é quase uma forma de racismo intelectual, de que quem faz cinema comercial é filho de um deus menor.»

Fingindo amar o seu público acima de todas as coisas, os best-sellers à portuguesa tomam-no muitas vezes apenas como instrumento para o êxito e, no fim de contas, menosprezam-no, já que na verdade ocupam mais do seu esforço argumentativo e auto-justificativo em queixinhas ou a procurar convencer a crítica de que têm por ela desprezo. Provando com isso que algures no seu íntimo sentem falta da aprovação dela para a certificação positiva final da própria obra.

(Se leu isto até ao fim, talvez se possa interessar por este post antigo: "Deixem o pimba em paz? As artes e o público".)