quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Orgulho e desvanecimento

Podemos sorrir, magnânimos, com o fervor patriótico provocado pela eleição de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas — mas não mais do que isso.

Racionalmente, a escolha para um cargo daqueles não pode assentar em parcialidades nacionalistas. A qualidade de conterrâneo não é um mérito que distingue ninguém, mas uma mera circunstância. Nasce-se português (ou sueco ou senegalês) sem voto na matéria, sem qualquer contributo pessoal para isso. Por outro lado, os feitos individuais de um concidadão não nos distinguem a nós. Caso contrário teríamos também de assumir como portuguesa a essencial escassez de carácter de Durão Barroso.

De resto, todas as nacionalidades têm os seus próprios conterrâneos. Uma eleição para a ONU que ponha os cidadãos a torcer pelos seus, como num mundial de futebol, é a subversão completa do espírito das Nações Unidas, que foram criadas, num momento de rara cooperação, justamente para prevenir o horror dos nacionalismos belicistas das duas Guerras Mundiais.

O orgulhozinho que os portugueses sentiram hoje é compreensível numa abordagem superficial e condescendente do tema, próprio da espuma jornalística, mas essencialmente desprezível quando se discute o que interessa.

Cem anos depois da Primeira Grande Guerra, não deveríamos estar a apostar, com amarga ironia histórica, num dos nossos para liderar a ONU, mas sim em alguém capaz de estimular a cooperação e conseguir os consensos necessários a um mundo em retrocesso em tantos domínios fundamentais da humanidade e da civilização.

Apenas se Guterres simbolizar (justificadamente) uma vitória da transparência ou da justeza, a possibilidade de os pequenos serem eleitos pelo seu perfil e competência, eventualmente contra os interesses particulares dos poderosos, o orgulho terá sentido — mas continuará sem ter pátria.

Se Guterres tiver qualidades que fundamentem este orgulho humanista, apátrida, o mérito é dele, não dos portugueses — embora os portugueses possam tirar proveito do seu exemplo e, nesse sentido, o orgulho terá alguma justificação: um orgulho antecipado, a crédito, pela possibilidade que nos é mostrada de fazermos coisas grandes a partir de uma nação pequena. Incluindo a nossa.

Podemos, enfim, ser ilibados da nossa condescendência com o orgulho pateta dos portugueses por esta eleição se esse orgulho tiver também em conta a aparente benevolência de Guterres. Não é a mesma coisa a nação rejubilar com o sucesso de um coração mole ou o apogeu de um videirinho (if you know what I mean). Não sou ainda suficientemente cínico para desvalorizar a diferença.

Em todo o caso, qualquer orgulho, ingénuo ou fundado, que este episódio possa suscitar choca necessariamente com a pouca importância que a imprensa internacional dá à eleição. O fervor, temo bem, é quase só lusitano.

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