sábado, 7 de maio de 2016

“Não se vive impunemente, não se escreve impunemente"

O tema da segunda mesa do Encontradouro, ontem, era "Não se vive impunemente, não se escreve impunemente". Aceitei o mote, mas não sei se para falar dele, se para fugir dele.

Que não se vive impunemente percebemo-lo de tempos a tempos quando nos olhamos ao espelho ou nos introspeccionamos e vemos o que os anos nos fazem. «Viver mata», diz o aforismo jocoso (não sei se apócrifo), e mata mais do que o tabaco, porque há mais gente a viver do que a fumar. A prova de que viver mata descobrimo-la depois de termos vivido uma boa quantidade de anos. Quando somos novos, como ainda vivemos pouco, temos a sensação não ponderada de que vamos viver para sempre, e naquela altura isso é verdade. Só depois de termos vivido, mal ou bem, é que descobrimos que não, que não vamos viver para sempre, que vamos morrer, que estamos já a morrer, que não se vive impunemente (lá está). Teríamos optado por não viver caso soubéssemos então que iríamos começar a morrer? Eis uma pergunta que não faz sentido nenhum. Só se descobre a morte, só se descobre intelectualmente a morte, depois de ter vivido algum tempo com essa consciência de ter vivido, seja um ano sejam dez. Há quem a descubra cedo, porque, em determinadas circunstâncias, perante determinados factos cruéis, pode-se viver muito em pouco tempo. E, quem nos pune por viver, não conta o tempo em anos, mas pelo tamanho do vivido.
Em certos locais, antigamente, as crianças que morriam eram vestidas de anjos no seu funeral e isso estava certo, porque não tinham estado por cá o suficiente para serem punidas, eram inocentes por ausência de vivido. Viver é o que implica punição, não necessariamente os pecados que cometemos. É como se nos dessem um dom e com ele a correspondente maldição. Vives, mas morres, vais morrendo até ao fim. E, quanto mais consciência tiveres de que vives, mais próximo estás do fim da impunidade. Quando, mais do que a viver, começas a pensar que vives, tem início a punição.
Há quem pareça viver impunemente porque, por estultícia ou por disciplina mental, se dedica a viver sem pensar na vida, no seu sentido e nas suas implicações morais. Chamamos-lhes pejorativamente néscios ou eternos adolescentes egoístas. Mas esta condescendência ou desprezo escondem inveja, porque no fundo todos gostaríamos de passar pela vida com o mesmo grau de inconsciência ou insensibilidade. Não, não com o mesmo grau, porque na verdade prezamos o saber que viver-a-pensar-na-vida nos trouxe. Isto é também uma forma de punição: estimarmos tanto a consciência que temos da pena como a vontade de a ignorar. Mas não há retrocesso, não se vive impunemente, depois de conhecer não se apaga o conhecimento senão por acidente neurológico, automedicação narcótica ou visitas frequentes ao bar. Raramente nos tornamos estúpidos (logo, felizes) ou cínicos (a forma racional de procurar a impunidade) se o não tivermos sido desde sempre.

O que tem isto da vida a ver com a escrita? Na maior parte das vezes, escrevemos depois de viver. (Por vezes fazemo-lo antes, e isso dá uns livros patetas que, não raro, são editados. E lidos. E, por patetice igual, apreciados.) Escrever depois de viver (ou pelo menos enquanto se vive, nunca antes) é a condição essencial do escritor que leva a sério o ofício — se me for permitida esta arrogância prescritiva —, e é frequentemente a punição. Um tipo vive, tem consciência que vive — logo, tem consciência que morre — e bota-se a escrever como um condenado, com o mesmo grau de melancolia por ver as horas passar lentamente aos quadradinhos ou de desespero, por as ver passar com velocidade estentórea, incontidamente.
Escrever pode ser a canga que nos faz vergar a cerviz sobre a mesa ou sobre o laptop e ruminar acerca da vida e do absurdo de uma existência decídua, caduca como belas mas efémeras folhas de ácer ou de carvalho.
Não se escreve impunemente porque não se vive impunemente.
Mesmo nos casos em que a punição da escrita é de um teor mais literal (ou medieval), nos casos em que a escrita é punida por delito de opinião, em ditadura ou em democracia (cada sistema tem a sua maneira de punir a escrita, quebrando ossos ou ostracizando), dizia que mesmo nos casos em que a escrita é punida à boa velha maneira da Inquisição, houve crime de viver antes de haver crime de escrever. Raramente os néscios ou os cínicos são alvo de punição pelo que escrevem (nos casos em que escrevem). Os néscios são por natureza felizes em ditadura como em democracia, logo nunca escrevem nada que chegue aos coronéis da censura. Os cínicos têm mais aptidão para chocar as pessoas de senso do que os poderes de serviço, pelo que resultam em geral impunes. São os que se defrontam com os dilemas da vida, os que não vivem impunemente, ou seja, alheios à vida, que correm o risco da escrita punível. Escrever alguma coisa incómoda pode ser apenas um corolário de escrever alguma coisa com vida.

Claro que escrever pode ser também acção de um sobrevivente gene grego: uma catarse que fazemos em público, com máscaras que nos amplificam a voz, para exorcizar mágoas ou raivas. Neste caso usamos a escrita como escudo, como instrumento para tentar deter a passagem ou os efeitos da passagem do tempo. É inútil — sabemo-lo logo que deixamos de ser adolescentes que fazem sonetos —, e é quando sabemos que a catarse é inútil que este género de escrita pode ter proveito: uma escrita ainda pungente, mas já não ridícula; lírica, mas não sentimental; melancólica em vez de melodramática. Não ganhamos impunidade com a catarse (não há impunidade fora da política ou do dinheiro), mas talvez um breve alívio ou um breve contentamento estético. O contentamento estético é a única forma que temos de acreditar por instantes que detemos a passagem do tempo ou os danos da vida.

Se eu estivesse designado para a 5.ª mesa, amanhã (a mesa que tem como tema Se não há gozo a Literatura é uma actividade insuportável), a minha intervenção teria uma tónica diferente. Em vez de estar para aqui a falar dos malefícios de escrever e estar vivo (mesmo sem tabaco), estaria a ler-vos um texto sobre o gozo que a literatura dá quando não se torna uma actividade insuportável. A forma de evitar que a literatura seja insuportável (para os que têm a pretensão de a escrever) começa por aceitarmos como coisa boa não a condição de escritor, mas os temas que nos dão, ou os temas que nos inspiram. O tema é frequentemente uma mera desculpa para encarrilar palavras, por isso não há que censurar nenhum tema a priori. Nem o desta mesa.
Talvez eu preferisse escrever sobre o gozo que a literatura dá (e nesse caso teria de falar também, ou sobretudo, como leitor), mas o gozo não se retira de o mencionar. Não nos rimos por escrever a palavra riso. Rimo-nos se juntarmos algumas palavras de forma cómica, assim como temos gozo a juntar palavras por vezes de forma inesperada ou até absurda. E esta é outra forma de lembrar que não se escreve impunemente. A escrita, lamento se com isto desiludo alguém, pode ser um irresistível exercício lúdico, mesmo se em tom dramático ou solene. Por vezes, se não nos vigiamos, damos por nós apenas a procurar formas engenhosas de juntar palavras e não tentar formas sublimes de dizer coisas elevadas. As palavras, tinham alguma razão os formalistas e os estruturalistas, são magnéticas, atraem-se umas às outras, estão ligadas como o Universo na Teoria das Cordas, levam-nos a dizer o que não esperávamos dizer tão-só pelo gozo fonético, lexical ou semântico. O vocabulário é uma armadilha, os campos lexical e semântico são campos minados. Quando por vezes pensamos que progredimos num texto e numa ideia estamos apenas às voltas com declinações. Uma metáfora é um atoleiro: caímos nele e, à força de esbracejar, frequentemente afundamo-nos sem dele sair, passamos para o atoleiro ao lado e depois para outro sucessivamente, como o nadador de John Cheever, antes de concebermos o deus ex-machina que dali nos tire (nem sempre conseguimos sair de forma natural ou sem ajuda e por vezes saímos apenas para descobrir que nada do que fizemos antes tinha qualquer sentido; como o nadador de John Cheever). Se escolhemos uma imagem ou uma associação, uma comparação, podemos descobrir, páginas depois, que falámos de muitas coisas por aquilo que as palavras nos sugeriram e não necessariamente pelo que a ideia inicial nos incumbira.
Tomemos o exemplo deste texto: muito mais do que um breve testemunho pessoal sobre o tema desta mesa transformou-se visivelmente num exercício acrobático com palavras-malabares — e tantas delas caíram ao chão desastradamente.

Talvez haja muitas razões porque não saímos impunes da escrita, são várias as consequências possíveis — consequências emocionais ou psicológicas: podemos ter saudades de um personagem que deixámos num livro, chorar outro que matámos, ficar perturbados pelo que descobrimos de um terceiro e com a forma como isso afectou a nossa vida e a ideia que temos de nós próprios ou de alguém que amamos; consequências sociais ou físicas: quando uma escrita mais incisiva nos recompensa com um ror de insultos, infâmia, ou uma carga de porrada de alguém ofendido; consequências financeiras e biológicas: se resolvemos largar tudo para viver da escrita, que neste caso é geralmente sinónimo de ar…

Mas os vícios também não deixam a escrita ficar impune. O vício do jogo é muitas vezes uma tragédia, como se sabe. Leva pessoas à falência e a serem ostracizadas. O jogo com as palavras não corre menores riscos. Se eu, que já sinto suficientemente a punição, persistisse neste caminho mais uma página ou duas, teria com certeza consequências financeiras: o auditório sentir-se-ia compelido a punir-me não comprando nenhum dos livros que tenho aqui à venda. Termino, por isso, esperando sem confiança ir ainda a tempo de ser reconhecido um mérito a este texto: o de ser curto.

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