quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Swamp Thing

«(...) Eu fazia isso em algumas noites, com o impulso gótico de me vir enrodilhar depois nas algas ou nas ervas das águas menos profundas, sentindo a repugnância da sua viscosidade, as suas carícias arrepiantes de seres vivos asquerosos, a sujidade do lodo a levantar-se do fundo e a procurar envolver-nos numa nuvem perceptível de sanguessugas. Eram banhos de podridão com que eu procurava purgar-me, em noites de lua nova, da benfazeja luz solar que no Douro nos faz sentir príncipes destinados ao ócio e ao amor cortesão numa eternidade descomprometida, leve, a conjugar verbos apenas no único tempo interessante, o presente.
Desci ao cais nessa noite com o mesmo propósito de mergulhar, de me espolinhar nas águas rasas da margem e regressar ao quarto pingando lama, para desespero do pessoal da limpeza no dia seguinte. Mas a lua estava agora muito avançada no seu quarto crescente, iluminando com uma proficiência de lua cheia aquele troço de rio ainda livre do excesso de iluminação pública que já se verificava em tantas estradas desertas da região. A presença da Adèle, nos seus habituais trajes etéreos, dedicando-se na beira do cais a seduzir o firmamento nocturno com o mesmo ritual dervixe que lhe vira no primeiro dia, fez-me mudar de planos. Inicialmente pensei que podia ficar apenas a observá-la, com aquele deslumbramento juvenil de rapaz que pela primeira vez descobre os contornos de um corpo feminino, mas depois agi como agem os homens adultos, se suficientemente cheios de si, e fui meter conversa.
Não era uma surpresa que a Adèle estivesse receptiva à conversa — não havia por ali muita gente com quem falar e eu ainda não estava transformado como habitualmente no Swamp Thing. As constelações, se formos competentes nisso e o céu estiver descoberto, são um bom tema de conversa. Há outras possibilidades, além dessa mostra extravagante de erudição cosmológica, como por exemplo a deriva para a Antiguidade Clássica — com os seus deuses, os seus mitos, as suas metamorfoses, os seus amores e a sua excitante promiscuidade — ou para assuntos de foro místico, como os signos do Zodíaco, igualmente prenhes de insinuações amorosas e preliminares sexuais.
A temática estelar interessou Adèle, seria aliás uma surpresa que não interessasse a alguém tão eminentemente espiritual, mas ela quis ver os astros do meio do rio. Que esse desejo tivesse uma plausibilidade geométrica, digamos, assente no cálculo intuitivo de que no ponto mais equidistante de ambas as margens arborizadas a cúpula celeste se revelaria de uma forma mais ampla, não diminuiu o meu sentimento de que havia uma intenção romântica na vontade dela. Tanto mais que me perguntou, delicadamente, se sabia remar.
Deslizámos em silêncio para o meio da corrente, que, apesar de fraca, não permitia que o bote permanecesse estacionário como num lago. Preocupei-me, por isso, em orientar a proa no sentido da corrente, corrigindo o nosso avanço involuntário com ocasionais movimentos dos remos. A Adèle reclinara-se na popa, com as pontas dos cabelos de nórdica submergidas no Douro e oferecendo a sua garganta branca à Lua e ao meu olhar.
Esgotado o meu conhecimento sobre constelações, e ainda com os contornos fantasiosos da casa da Quinta à vista, como se estivéssemos no meio do Lago Léman, a rapariga belga, inspirada por essa mesma divertida imagem nocturna de uma Suíça duriense, enveredou pela história de Mary Shelley, de que parecia ter decorado longos parágrafos da Wikipédia. Falou da mãe da escritora, a feminista Mary Wollstonecraft, e do seu pai, o filósofo William Baldwin. A Adèle estava simplesmente a fruir um tema que a entusiasmava e, com intenção ou não, a dar-me a conhecer a sua adesão a ideais de amor livre, mas eu ficara retido umas passagens atrás, na entrada do seu dicionário que falava dos escritos de Baldwin sobre o casamento enquanto «monopólio repressivo».
A linhagem Wollstonecraft/Baldwin/Shelley era algo mais do que eu poderia suportar. Toda aquela gente de espírito livre, tão sensata e avançada quanto às relações entre homens e mulheres, parecia ter sido convocada para me fazer enfrentar os meus fantasmas recentes. Se a Adèle tencionava ter comigo o seu caso amoroso no Douro Superior dera um passo em falso com aquela digressão de enciclopédia online. Eu teria sido facilmente seduzido, naquele tão agudo estado de carência, mas, pelo menos de momento, ocorria-me tudo menos ter sexo com ela no fundo impermeabilizado do bote da Quinta de Pompeia. Antes que, de Shelley, me viesse à inspiração Frankenstein, um ser de um romantismo menos delicado, remei com furiosa urgência até ao cais, alegando efeitos secundários do jantar, de costume tão saboroso e serenamente digerível.»

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