sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Sílvia

«Quando a Sílvia cresceu não o fez apenas em sentido figurado, como acontece a tantas mulheres, cujo corpo de adolescente se transforma e enche de curvas mas não se estende verdadeiramente em direcção aos céus. Com Sílvia o crescimento ganhou expressão e significado, foi botânico, os seus membros cresceram como troncos e ramos de árvores mas ao ritmo de pés de feijão, ávidos de sol, competindo com os adultos pelo domínio do espaço aéreo. Nesse processo de grande consumo energético, tornou-se magra, por vezes demasiado magra, e a herança feminina da madrinha, sua avó, aqueles seios fartos mas rijos, parecia um equívoco, uma perturbação no perfil longilíneo, um lastro à última hora adicionado à sua anatomia para a impedir de se perder nas nuvens antes de a hipófise determinar o fim do crescimento.
Ter um peito daqueles não lhe concedeu porém uma silhueta recurvada; algo na sua estrutura óssea e muscular resistia à gravidade, a Sílvia deslocava-se de nariz bem emproado e sentava-se num perfeito ângulo recto que surpreendia. O primeiro bofetão que lhe dei, depois de me ter deixado, foi também em paga daquela perfeição ergonómica (talvez um ressentimento inconsciente da promessa de corcunda que eu era). Há algo de irritante numa mulher que parece quotidianamente a ilustração viva de um manual de etiqueta. Mesmo que na maior parte do tempo nos encha de vaidade (e até desejo) o seu talento para a elegância — expresso na materialidade das roupas e adereços que adquire sem interrupção, assegurando um fluxo de aquisições permanente e vital como soro para moribundos, e na imaterialidade da sua postura, fisionomia, gestos de antebraços, pensamentos e locuções de profunda vacuidade —, mesmo que nos sintamos envaidecidos e distintos por ter uma mulher assim, há sempre momentos em que vivermos com a Ava Gardner ou a Audrey Hepburn nos cansa. Cansa contracenar diariamente, sentir a obrigação de ser Gregory Peck das abluções matinais ao último escovar de dentes do dia. Um bofetão é um grito de liberdade, ainda que dado fora de tempo.»

1 comentário:

Luis Eme disse...

Pobre Silvia.

Não lhe chega o peso dos seios, ainda sente o peso da mão do amante. :)