sexta-feira, 10 de julho de 2015

«A vida militar»

[Primeiros parágrafos de uma prosa justamente descontinuada]

«Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me às vezes entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios, dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde gostavam de assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me mais um lambefe. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura do carro salvífico. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho apressado onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Nas primeiras noites em Mafra, tremi como alguém resgatado do gelo. Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos e parafinados de chaimite). Ao contrário da maioria das lojas de marca, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera já de si empestada da caserna.
O pior foi que com as fardas não nos entregaram nenhum pijama e as noites de Fevereiro, vocês sabem, podem ser bem frias se dormirmos no túmulo de pedra e mármore de conventos como o de Mafra — e sobretudo se a generosidade do Exército não for além de um cobertor no fio. Demorei uma semana inteira a perceber que me estava a cagar para o aprumo da farda e que portanto tinha era de dormir vestido se queria parar de bater os dentes à noite. Aparecer na parada com a farda enrugada era um pequeno problema, tinha de se aturar os gritinhos do furriel ou as ameaças de castigo, por vezes concretizadas, do alferes. Mas o que era isso comparado com a insónia gelada?
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora isso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica, como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3. Enfim, um rol de condições e regras que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, vestido para ir à madrinha quando havia ordem de permanência de fim-de-semana. Ou tendo esquecido a arma num dia destinado à carreira de tiro. Ou vestido com o fato de ballet quando toda a parada estava coberta do verde número três da GAM*. Reconheço, à distância, que deveria ser divertido para os outros, quando as companhias estavam já perfeitamente alinhadas e de capacete num geral verde oliva, ver-me chegar atrasado e coberto de branco de cima a baixo (t-shirt de alças, calção vincado, meias virginais enfiadas nas alpergatas de lona alvacenta e esta pele nívea que Deus me deu, o conjunto coroado pela matinal e refulgente penugem loura). Mas, apesar da cor, eu era ali a ovelha negra e os outros os cordeiros obedientes. Não fazia questão de aparecer de forma diferente no desfile quotidiano. Apenas me esquecia na véspera de ler as ordens de serviço, ou, na decisão de ignorar que estava na tropa, lia-as mal.
Claro que devia desconfiar da surpresa e da malícia do armeiro quando ele me entregava a G3 mal contendo o riso de me ver desacertado no fato de ballet. Eu nem gostava do equipamento de ginástica — era frio, tiritava o tempo todo quando o usava —, mas sabia que em metade dos dias da semana era esse o traje adequado nas primeiras horas da manhã, quando íamos cumprir a nossa dose de exercícios físicos (na outra metade da semana, vestíamos a farda de trabalho e íamos marchar ou praticar na pista de obstáculos). Tinha portanto cinquenta por cento de hipóteses de acertar, e na maioria das vezes acertei. As poucas em que isso não aconteceu foram infelizmente demasiado marcantes. Fizeram-se fotografias, rapidamente célebres.»

* «Ginástica até à Morte», ou «Ginástica de Aplicação Militar», na linguagem sofística do Exército.

P.S.: Outros parágrafos falhados podem ser lidos aqui: http://www.canhoes.blogspot.pt/2013/03/primeiros-paragrafos.html

1 comentário:

Luis Eme disse...

Com todas essas particularidades, isso é que foi sofrer. :)