segunda-feira, 6 de abril de 2015

A ascensão germânica

Há quem diga que todas as rivalidades dos anos 80 foram redimidas com o convite de Nena a Kim Wilde em 2002 para o remake de “Irgendwie, Irgendwo, Irgendwann”, incluído no álbum que celebrava os 20 anos de carreira da cantora alemã com o título “Anyplace, Anywhere, Anytime”. Mas a exegese do vídeo que acompanhou a canção deu azo a duas teorias diferentes. A primeira toma o gesto de Nena por um acto de piedade, não de conciliação. Contudo, embora a piedade não raro envolva sobranceria ou condescendência, pode-se ainda optar por ver ali apenas nobreza. «Vamos lá tirar a Kim da sua jardinagem por um momento e lembrar ao mundo como também ela cantava bem», poderia ter pensado a simpática Nena, num arroubo de caridade.
A segunda teoria, porém, não deixa espaço a ambiguidades destas. Os seus preconizadores consideram que os 3’44’’, apesar da boa prestação vocal de Wilde, são uma orquestrada humilhação que a raça ariana, representada pela esguia, jovial e saltitante Nena, perpetra sobre a melancólica e já pesadona Inglaterra. Eram, defendem, os primeiros sinais da ambição germânica que dez anos depois transbordaria do festival da Eurovisão para a economia e a política.

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