terça-feira, 2 de setembro de 2014

Já ninguém lê o Tio Patinhas no Verão

«Já ninguém lê o Tio Patinhas no Verão e não sei bem o que fazem os putos no Verão. Talvez ainda joguem às cartas, mas para o Patinhas já não têm tempo. Fico às vezes a vê-los, todos iguais, como clones saídos de uma máquina que tivesse sido inventada para fazer face à crise demográfica. O mesmo cabelo cuidadosamente despenteado, os mesmos ténis de marca, as mesmas t-shirts, as mesmas calças de ganga pré-rotas — porque eles já não rompem os seus próprios jeans, não os vestem durante tempo suficiente para que eles se rompam, têm de os comprar previamente esgaçados. É a geração MTV, diz-se. Mas pergunto-me se a nossa não era também uma geração qualquer coisa — pós-punk, new wave, dos primórdios do videoclip, ou ainda não isso, a geração jornal Sete, algo do género. Seja como for, quando se é adolescente sente-se uma necessidade grande de copiar, e nem sempre se copia o melhor ou o mais adequado. Sabemo-lo quando regressamos de uma desintoxicação e temos a certeza que vamos recair, porque algures lá atrás experimentámos qualquer coisa que era imensamente fixe mas trazia inclusa a receita da nossa destruição.
Os montes em Aranda ardem com admirável regularidade e o vento percorre o vale como se soprasse num túnel. Nessas alturas recebemos na cara o seu bafo quente, impregnado de cheiros, e eu por vezes penso em corpos cremados, milhares de fantasmas arrancados do solo, e é a energia deles que nos toca, são as cinzas deles que vemos cair no chão da varanda, as suas memórias que nos visitam e avivam as nossas.
Passaram três carros particulares para o hipódromo, mas foi o táxi o que mais me intrigou. Um perfil, um rosto, os cabelos ondulados. Era uma lástima que não pudesse distinguir-lhes a cor, a cor dos cabelos, como tinha sido uma lástima deixar de ver o casaco vermelho do Tio Patinhas, o dólman azul do Pato Donald, a camisola amarela do Peninha, a laranja do Pateta, as penas verdes do Zé Carioca, toda a paleta viva saída dos lápis de Walt Disney.
A cor era uma das componentes das trips: voltávamos às drogas também pelas explosões de cor, pelas cornucópias e espirais psicadélicas, os abismos e túneis curvilíneos, labirínticos, os milhares de cintilações e raios, um firmamento extático que a natureza não podia copiar, porque com as cores vinham sensações físicas fabulosas, elas agiam como agulhas na acupunctura, cada cor o seu prazer; e não havia tempo, ali, cronologia, era um hiato infinito. Não tínhamos como saber que as visões fantásticas que desfrutávamos eram o nosso próprio cérebro a explodir, os neurónios que queimávamos, a fissão das sinapses. Andávamos nos ácidos e chutávamo-nos para ver por dentro o fogo-de-artifício na nossa cabeça e não o sabíamos; o cavalo era o bilhete que comprávamos para assistir ao vivo e em directo à auto-destruição da mente.
Depois veio uma tarde como esta, à varanda, Verão, a nostalgia benigna de mergulhar numa aventura do Tio Patinhas. E as cores a esbaterem-se, a desaparecerem, como se alguém tivesse escolhido a opção transformar em escala de cinza do Photoshop. O universo Disney a preto e branco, como algumas histórias em certas edições mistas. Mas não adiantava virar as páginas, avançar ou voltar atrás até aonde havia cor; de repente toda a edição estava descolorida, a própria capa, em papel brilhante, plastificado, era cinzenta.
Talvez não tenha sido assim de imediato, talvez eu tivesse perdido as cores de forma progressiva. Como o cabelo: não recordamos cada centímetro que ele cresce, mas sabemos, na altura de o cortar, que um dia o tivemos curto. Ou, se formos carecas, não recordamos a queda, mas a cabeleira que deixámos de ter. No entanto, é desta forma que eu lembro as coisas, num momento o mundo era normal e no seguinte parecia um filme do Frank Miller, redundante como um filme de Frank Miller. A vida já era suficientemente soturna, não havia necessidade de sublinhar o facto com o preto e branco. Eu percebo que os espectadores dos filmes precisem de uma representação gráfica da atmosfera para melhor entenderem a ideia, mas eu não era um espectador, não observava de fora.
Acromatismo. Havia os daltónicos, que confundiam o verde com o vermelho — coisa chata em dia de derby desportivo ou quando se esquecia a ordem das luzes num semáforo — e havia eu, um caso extremo e raro de discromatopsia. Não era apenas estar na merda, olhar em volta e ver tudo cinzento como num dia de chuva. Não era alucinação, supondo-se que há alucinações descoloridas. Não era passageiro. As substâncias químicas têm destas coisas, ninguém sabe muito bem o alcance dos seus poderes, como algumas personagens da Marvel. Um dia salvam a humanidade de ameaças terríveis e no seguinte caem em desgraça e destroem tudo aquilo em que tocam. Eu conhecia (e apreciava) enredos destes — não contava era ser vítima de um deles.
Ruivos. Adivinhei-os ruivos, aos cabelos que passaram na parte de trás do táxi. Tão ruivos que evocavam os montes em chamas de Aranda e tão ruivos que me doía a alma por não os poder já ver desta forma.»

Pedro, in Aranda

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