quarta-feira, 11 de junho de 2014

A menina de óculos

Saltitante como um cachorrito, acompanha os pais numa caminhada ao fim da tarde. A figura de alguém que lê um livro num banco à margem do caminho prende-lhe de súbito o olhar. Não ao ponto de a fazer perder a oportunidade de pisar ritmadamente as pedras que enterraram no percurso a fingir de pegadas de animais. Mas, cumprido o gostoso exercício, volta a observar o leitor enquanto passa por ele. Uns metros depois, não resiste a virar-se para trás e dar uma última espreitadela. Os óculos de massa apoiados no narizito parecem assegurar-lhe um perfil de leitora precoce e cúmplice que acabou de reconhecer um par. Porém, as aparências demasiadas vezes enganam: talvez seja apenas uma criança que acabou de ver uma bizarria. Ou talvez o paralelo canino seja acertado e, como todas as crias de mamíferos, está apenas a cartografar intensa e francamente o mundo, ainda desconhecedora das convenções adultas sobre o olhar.

Eu próprio transgressor, pisquei-lhe — e ela sorriu. Não digam a ninguém.

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