quarta-feira, 16 de abril de 2014

O meu prédio é uma metáfora nacional

O meu prédio é uma metáfora nacional. Durante anos apenas nos mijavam diária e copiosamente a entrada principal. Os excessos da boémia académica são o tributo que a terra aceita pagar pelos benefícios de ser uma cidade universitária. Pode dizer-se que Vila Real contribuiu activamente para hoje termos a geração mais indiscutivelmente bem formada da história lusa.
Como o progresso é imparável, no último ano temos também diariamente mijada a porta das traseiras. Já não pelos frequentadores das tascas do bairro, mas por adolescentes do prédio que se acoitam à noite, com as suas playstations, primeiros cigarros e cervejas clandestinos, numa das garagens familiares convertida em sala de jogos.
Lamentavelmente, dentre as benfeitorias levadas a cabo na garagem não parece constar nenhum WC, penico ou algália. Os papás proprietários da garagem não devem ter sentido necessidade disso porque confiam demasiado na elasticidade das bexigas juvenis, ou, mais certamente, porque não utilizam a nossa porta das traseiras, a mais discreta da fachada.
Em consequência da boçalidade adulta e da imbecilidade infanto-juvenil, do desleixo duns e da má-educação doutros, no meu prédio entra-se hoje sempre de mão no nariz e a descolar os sapatos depois de cada passo dado. O exercício é particularmente divertido e peganhento nos dias em que, como agora, há pó verde de pinheiros também nas entradas dos edifícios.

1 comentário:

Jota Pê disse...

Diga quando quiser fazer intercâmbio. Cedo-lhe, por troca com a sua escada, a minha rua com os passeios mais minados de cócó de cão do que alguns campos de minas do Huambo. Felizmente tenho uns quantos vizinhos, daqueles que em casa só acolhem dois gatos, um tartaruga, duas cacatuas e um hamster, que quando levam o cachorrinho à rua, a alivar-se, só o deixam fazer na berma do passeio , na faixa de rodagem. É graças a esses que, quando pela manhã abro o portão da garagem, posso exalar um estimulante fedor a dejectos esmagados pelos pneus do meu rico carrinho que ainda não aprendeu a arregaçar as jantes e a desviar-se dos odoríferos cagalhotos. Marque o dia e hora para troca, serei pontual, prometo.