segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Conservador

Nos anos do Independente sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas, como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente, aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada politicamente.

Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse. Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.  

[Romanas, 17.11.2013]

2 comentários:

Pedro Góis Nogueira disse...

A mim no essencial, de certa forma, aconteceu-me mais ou menos o mesmo - a atracção pelo Indy e pela Kapa, mesmo assim não chegando à atracção ténue pela direita -, e um recente virar à esquerda. Talvez vá ter uma inflexão conservadora :) Se bem que esteja cada vez menos progressista.

PS: Aproveito para dar os parabéns pelo romance. Fartei-me de ir tirando notas enquanto o lia, prova de que me encheu as medidas. Terei um post em breve sobre "os Idiotas", que vale o que vale, mas é a minha leitura da leitura :)

Rui Ângelo Araújo disse...

Obrigado pela(s) leitura(s).
Infelizmente, a minha reivindicação do direito à propriedade privada não será atendida no caso da propriedade em apreço, e impede-se assim a minha plenitude conservadora. :)
Fico contente por o livro lhe ter enchido as medidas e fico com curiosidade acerca do post.