quinta-feira, 19 de setembro de 2013

2* - Inimigos da literatura

Não é incomum as pessoas medirem o mundo pela sua própria bitola, também se se trata do mundo o literário. Quando os escritores se arregimentam numa escola, fazem-no quase sempre como se houvesse uma guerra e eles estivessem numa trincheira. Fora do buraco que cavaram para si próprios, tudo deve ser aniquilado, nada merece existência. Na versão benévola, tudo fora da trincheira é medíocre ou inútil.
É bom que a espaços haja destes belicismos. Do confronto é que surgem as coisas boas e novas. Almada estava provavelmente a exagerar no Manifesto Anti-Dantas, mas foi bom que o escrevesse.
Mas passados os ardores da juventude e vencido o complexo de Édipo, é um pouco estúpido permanecer entrincheirado.  A diversidade não deveria ser um termo restrito à ecologia.

Para além disso, os tempos não estão para guerras do alecrim e da manjerona. Se no início do século XX toda a batalha se travava entre artistas e escritores de diferentes facções ou gerações era porque eles tinham basicamente o monopólio das artes; no início deste século há que considerar as massas, a indústria e as TVs. Se se distraem muito, não tarda as lutas fratricidas serão travadas na clandestinidade ou num reduzido, irrelevante, inútil anonimato. Talvez o inimigo da literatura não seja o tipo que gosta de coisas diferentes de nós. Esse ao menos ainda gosta de literatura.


* Considerando que o post anterior foi o número da série.

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