sexta-feira, 1 de março de 2013

A angústia de medir pilinhas

Depois de muito adiar, li recentemente O Retorno, de Dulce Maria Cardoso. É um excelente romance, merecedor dos elogios que recebeu.
Por variadas razões, não tenho sido leitor habitual dos novos autores portugueses. O orçamento é escasso e na hora de seleccionar as aquisições raramente me parecem urgentes estas novidades tugas. Os livros pretos de Gonçalo M. Tavares, em tempos, os de Rui Cardoso Martins e um ou outro mais têm sido, se bem me lembro, excepções. Suponho também que andar em quezília com a literatura me tem levado a manter a minha geração à distância. Ou talvez seja a eterna condição de aprendiz que determina atenção particular aos mestres. Um pouco disto tudo, certamente.
Com O Retorno havia, no entanto, mais do que com qualquer outro, a angústia do cotejamento. Um ano antes de o livro sair eu tinha terminado o meu próprio romance sobre retornados. Não exactamente uma crónica literária sobre aquele período conturbado de 1975. Hotel do Norte, o meu livro, é, algo diferentemente, uma ficção que se apropria de memórias. Se dele resulta também um retrato de época é uma inevitabilidade, não tanto um objectivo.
Em todo o caso, O Retorno preocupava-me. Temia o confronto. Permanecer-se um autor inédito tem as suas vantagens: a ilusão é permitida, está-se ao abrigo da crítica profissional. A nossa carreira depende apenas do nosso juízo e do afecto dos amigos. Está garantida, portanto. O problema é se nos pomos a medir talentos, como adolescentes inseguros da sua virilidade. Pode dar-se o caso de concluirmos, com horror, sermos menos dotados do que o rapaz do lado. Saber que a Dulce Maria Cardoso era uma rapariga não me deixava descansado. Pelo contrário: a minha opinião sobre as raparigas, na literatura como em outros campos, só agudizava a angústia. Manter a obra à distância era uma precaução, profilaxia contra o baixo astral.
Entretanto li o livro, como disse, e a par do entusiasmo que ele me suscitou senti também um certo alívio. Não porque o achasse menos bom do que a crítica dizia (no futebol é que se alegram com as derrotas alheias), mas porque o meu escrito não saía completamente humilhado da comparação. Saía até autorizado a levantar uma orelhita. Fiquei a achar — com inédita pretensão — que na cabeça de um leitor O Retorno e o Hotel do Norte não competem, conversam. Não se anulam, estimulam-se. Senti por um bocadinho que não fui autor de um desastre sem lugar nas prateleiras. Mas felizmente estão aí os editores para me devolver à Terra.

3 comentários:

Luis Eme disse...

pois...

Anónimo disse...

Ainda não li nem um nem outro, mas este texto despertou-me a curiosidade por ambos.

Rui Ângelo Araújo disse...

Caro Luís,

O Retorno tem uma edição simpática, de cantos arredondados, a 10 euros, alternativa que se agradece nos tempos que correm. Do Hotel do Norte sabem os deuses se algum dia terá edição, simpática ou outra.