quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Segunda Lei de Newton

Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.  
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.

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