quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Diário de fim-de-ano (4)

São dois casais à mesa do almoço. Vão rilhando azeitonas e listando destinos de viagens. Singapura, China, Rússia, Vietname, Brasil, Dinamarca... Existe um país no mundo? Eles estiveram lá. É uma competição, mas como são amigos e o almoço é o último do ano, os ânimos estão pacificados. Contentam-se em ser montras de si mesmos, da sua vaidade, e quase não há discórdia ou contestação sobre a beleza de um destino ou a qualidade de um hotel defendidas pelo outro casal. Têm outros processos: sim, concedem que a coisa mencionada é excelente; mas, se lhes permitem, não podem deixar de assinalar uma outra excelência a poucos quarteirões dali. Ou na cidade ao lado. E aproveitam para introduzir um novo país.
Na Índia, a mulher do casaco de peles conseguiu cruzar toda a nação sem ter de usar uma casa de banho que não fosse a higienizada de um hotel ou restaurante incluídos no roteiro, tal o planeamento e a eficácia da agência de viagens. Louva tanto a empresa e insiste tanto no feito que ficamos com a ideia de que a agência de viagens lhe teria proporcionado um penico de ouro, se uma necessidade súbita a acometesse entre Varanasi e Jaipur.
Já na Finlândia, aliás um país de novos ricos, as coisas não correram tão bem. A senhora não gosta de viajar de autocarro, fica-lhe a doer horrivelmente o rabo. Por isso tinha-se mostrado um pouco horrorizada com a viagem de horas que a amiga disse ter feito entre Helsínquia e S. Petersburgo. Ela também andou de autocarro na Finlândia, mas num percurso mais pequeno, claro. O que não impediu que as coisas corressem mal. Houve uma avaria e ela e o marido ficaram duas horas inteiras à espera que a reparassem. Não enviaram um autocarro novo, fizeram-nos esperar no local, vejam lá vocês. Definitivamente, a Finlândia foi uma das piores viagens da sua vida. Paisinho cinzento e detestável. 

A conversa decorria numa das nossas próprias cidadezinhas horrorosas de país assistido pela troika, e aqueles quatro eram decerto membros das forças vivas da região, com rendimentos fantásticos e influência política assegurada. Talvez tivessem até integrado alguns dos executivos autárquicos que tão diligentemente plantaram o caos e a fealdade pelas redondezas. Talvez agora estivessem também a empobrecer um pouco e as recordações de viagens fossem sintoma de império em declínio, nostalgia de família arruinada: no restaurante, com vinho e sobremesa, podia-se comer por pouco mais de cinco euros. Era um desses.

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