sábado, 12 de janeiro de 2013

Baixista

De uma certa perspectiva, fui um baixista típico, na medida em que fui baixista por incompetência para ser guitarrista. Não era deste modo que se fazia a selecção de baixistas? Nem era uma selecção: os tipos talentosos pegavam nas guitarras; os instintivos iam para a bateria; os outros, como eu, fingiam-se fascinados por violas de quatro cordas. Que ainda assim tinham cordas a mais.
É verdade que no meu mundo o lugar de guitarrista já estava (bem) ocupado, e não haveria nada que eu pudesse fazer para conquistar o posto, excepto talvez abater o titular. Mas não se ganharia nada com esse esforço e esse crime, excepto mais um guitarra-ritmo medíocre. E eu perderia um irmão. (É certo que tinha mais dois.)
No princípio faltei às aulas e tangi uma viola barata até fazer sangue nos dedos. Mudei para o baixo mal houve possibilidade de usar um, e continuei a massacrar as polpas, desta vez com bolhas e calos. (Não sei se já deram conta, mas tocar um baixo é como acariciar uma grosa, assim romântico e esfoliante.) Insisti tanto no exercício que julgo perceber o papel submisso numa relação sadomasoquista. No final conseguia realizar algumas piruetas com os dedos — e falhar uma boa meia dúzia de notas. É que o ouvido nunca acompanhou o desenvolvimento digital. E o estilo: fui talvez o primeiro baixista a usar luvas sem dedos e gel no cabelo nos bailes das castanhas de Carrazedo de Montenegro, mas fui também decerto o que menos vezes se ateve ao tom e à escala.
No meu tempo, um baixista aceitava tocar nos bailes pelo dinheiro e pela “experiência”. Tocar em cima da galera de um tractor era um bom tirocínio, defendíamos. A primeira vez que o fiz, substituindo um músico que tinha sido mobilizado pelo exército, o conjunto ia já na quinta rapsódia quando eu finalmente descobri a sequência de acordes da primeira música. Creio que o líder da charanga tirou o baixo do PA no final do primeiro compasso e tudo o que eu ouvia, eu e mais ninguém, com atenção e proximidade de Narciso à beira lago, era o som do meu amplificador. Podia ter ficado toda a noite a tentar decifrar o resto do repertório e a sentir na orelha a vibração do altifalante que ninguém lá em baixo se daria conta.
Mas alguma consciência das minhas limitações (e da avançada embriaguez) eu tinha, já que foi com alívio que recebi (eu e a banda) o aparecimento-surpresa do antigo baixista, em folga da tropa. Anda hoje sonho com a aflição de não acertar uma nota e a alegria de ver um tipo de bigodes subir ao palco e pedir autorização para tocar uma música ou duas. Aquilo começa por ser um pesadelo, pela aflição, e termina como um pesadelo, pelos bigodes. O alívio na verdade só acontece quando acordo e me lembro que não voltei ao palco.
De tanto praticar, atingi uma competência relativa no baixo, mais devedora da pura mecânica dos tendões do que da obediência a qualquer escala. Isso e o talento real do mano puseram-me um dia de fato e colete verdes no palco do Rock Rendez-Vous, quando já não havia Rock Rendez-Vous e a RTP2 decidiu inventar um miserável sucedâneo. Mas isso é história para outra altura. Chega de humilhação para uma noite. Já consegui não fazer o que tinha para fazer hoje.

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