domingo, 9 de dezembro de 2012

Such a lovely day (jogging no parque)

Quilómetro 2
O miúdo gostava do pai e da mãe. Eles não gostavam um do outro. Quando finalmente deram o passo certo, o miúdo ficou triste como se diz da noite. Nos dias de custódia do pai, ele informava-o de tudo ao contrário, ao falar de casa. No regresso, fazia o mesmo ao apresentar o relatório do dia à mãe. Imaginava-se capaz de, mentindo quanto ao que diziam os pais um do outro pelas costas, voltar a uni-los. Depois pensou melhor. Quando eram uma família, o pai nunca o levava a passear no parque, nunca jogava à bola com ele nem lhe comprava gelado. Não o levava ao cinema nem se ria das piadas e das tropelias. Talvez aquele divórcio não tivesse sido má ideia. Ao contrário do que diziam na escola, agora é que ele tinha pai, mesmo que só de quinze em quinze dias.

Quilómetro 4
Duas miúdas ainda com cara de anjos e roupas de marca macaqueiam sem inocência o andar e as expressões de membros de um gangue. Detêm-se num cruzamento. Hesitam quanto ao caminho a seguir. Uma delas sugere a esquerda, tem menos gente e mais árvores. Vão de certeza fumar às escondidas.

Quilómetro 6
São um casal, pouco mais do que adolescentes, fotografam-se e fotografam o parque inteiro. Fazem poses. Escolhem ângulos. Demoram-se. Parecem sensíveis à beleza outonal.

Quilómetro 8
Um homem pára o carro. Dir-se-ia saído de uma máquina de envernizar e de engomar. Os sapatos pretos brilham, têm reflexos prateados, de tão novos. As calças, com um vinco como um fio-de-prumo, e o blusão anguloso, de corte impecável, parecem adereços de uma produção de moda. O bigode foi acabado de aparar, milimetricamente. O cabelo, branco como farinha, ainda molhado do duche ou embebido em gel, tem desenhados os riscos do pente, paralelos e direitos como carris na estepe russa. O carro é um BMW e, apesar da propensão do dono para os alinhamentos perfeitos, foi estacionado numa diagonal negligente, ignorando as marcas no pavimento, ocupando dois lugares. À patrão, diz o povo.

Quilómetro 9
Lá estão de novo as miúdas clandestinas, casacos pendurados na cerca de madeira, os braços nus em Dezembro para reforçar o desafio façanhoso com que nos olham. Batem os maços de tabaco na mão como vêem fazer aos mais velhos, forçando a saída de mais um cigarro. Mal podiam esperar para o fazer. Mas, olhemos melhor: não é um maço de tabaco. É o telemóvel. Talvez tenham vindo só passar a tarde no parque, raios.

Quilómetro 10
O casal de fotógrafos está agora à saída da última ponte pedonal a sul. Ele de joelho no chão, ágil, ela a sorrir para ele, tímida e encantadoramente, nas suas calças sexy e inesperado casaco comprido. São amorosos e sensuais. Mas depois ele fala, com voz grossa, grosseira, sotaque de guna, «Tá quéta, caralho! Foda-se, tá quéta!», e o (meu) idílio acaba-se, não importa como lhe responde ela.

Quilómetro 12
Último cruzamento. O percurso transforma-se numa rampa em paralelos. Na esquina, duas figuras, versões femininas de Dom Quixote e Sancho Pança. Cada uma delas tem a sua própria preocupação. A da frente, alta, magra, calções curtos sobre meias pretas, pernas torneadas, camisola de gola alta realçando estrategicamente o peito, diz que o problema são os saltos, que se enfiam nas juntas da calçada. A outra, baixita e redondita, sapatos rasos, tentando acompanhar, diz que o problema é a subida. E eu, esbaforido, concordo com ela.

2 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, num mundo perfeito nada seria assim!
Mas estamos em Portugal, não é?

E quem é que disse que fazer jogging sózinho é aborrecido?
Eu diverti-me imenso a lê-lo e até nem me cansei nadinha!

Saudações Periféricas.

Antonieta

Rui Ângelo Araújo disse...

Obrigado!