segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Salários e responsabilidades

Lembro-me que, anos atrás, fiquei contente quando descobri que certos pedreiros ganhavam o dobro de mim. Não era exactamente o meu gene comunista a manifestar-se, era a ideia de que se algo corresse menos bem, se tivesse de sacrificar-me e ir trabalhar ao ar livre na intempérie, no inferno do Verão ou no gelo do Inverno, pelo menos teria o consolo de saber que poderia ganhar bom dinheiro, se trabalhasse mesmo muito.
Parecia-me uma correcta organização do mundo, o capitalismo a funcionar da forma certa. Maior produtividade, maior vencimento. Boa remuneração para trabalhos difíceis, mas necessários, que a generalidade dos homens de bom grado recusaria.
Mas cedo descobri que aqueles casos eram excepções no tempo e no espaço. O capitalismo, pelo menos na versão portuguesa, não premiava o esforço, não tinha incentivos para as profissões duras. A pessoa tinha sorte ou azar, era tudo. Ter uma profissão dura não era uma opção com um bom salário em vista, era uma desgraça, algo em que se caía por falta de alternativas. As tabelas salariais das profissões e das empresas não estavam feitas a pensar na dificuldade do serviço. Na verdade, quanto mais sorte se tinha maior era o vencimento. Quanto mais limpa e menos custosa fosse a função, mais bem paga ela era. Supostamente porque a função mais limpa e mais confortável era também a que tinha mais responsabilidade.
Só que responsabilidade não é um conceito lusitano. A palavra existe no nosso dicionário, mas com outra semântica.

Para muita gente, conquistar uma posição mais alta na hierarquia de uma empresa ou instituição é obter um privilégio, ascender a uma espécie de estado de nobreza medieval. A sociedade portuguesa está cheia de viscondes e duques, gente cujo vencimento superior ao dos seus subordinados não se destina a pagar a responsabilidade, a liderança que devem assumir com dedicação. Um salário alto é um dote, um tributo, algo que cai na conta ao fim do mês como a renda devida ao sangue fidalgo. Um direito natural que não precisa de mais justificação do que titulo outorgado ou herdado. Ser chefe de secção ou director de serviços não significa que se tenha de chefiar ou dirigir coisa alguma. Significa apenas que se tem uma comenda, que se conquistou o direito a receber mais do que o comum dos mortais e a trabalhar menos do que eles.
Este tipo de viscondes tem aversão a ser incomodado com as questões do serviço. É um ultraje que os subordinados lhes peçam uma orientação ou uma decisão. Suas altezas não podem ser aborrecidas com matéria tão vil. Se ascenderam ao estado ducal não foi para sujarem as mãos ou matarem a cabeça. «Eu não posso ser incomodado com estas coisas», ouve-se-lhes com frequência, em tom enojado ou escandalizado, sendo «estas coisas» o serviço por que são responsáveis. O seu trabalho quotidiano, que lhes toma geralmente um décimo do dia, segue uma vetusta tradição lusa: tratar do despacho. E o despacho, como o próprio nome indica, consiste em despachar para os funcionários menores toda a documentação e assunto que careça de resolução, sem mais nenhuma directriz do que um seco «resolva» e a respectiva assinatura e carimbo. Caso o funcionário pretenda manifestar dúvidas ou solicitar instruções deve preparar-se para lidar com a impaciência ou a ira do superior — e para não obter nada do que necessite. Se tiver a veleidade de insistir, talvez perceba de uma vez por todas o que significa liderar ou dirigir, o que significa a responsabilidade: «O amigo trate de resolver o assunto como bem entender e sem demoras», é a resposta que obtém. «E fique sabendo que se isto der para o torto não vou ser eu a cair». E o chefe tem razão, porque em Portugal aos chefes não se lhes exige mais do que o pleno usufruto dos seus privilégios. Jamais ocorre em nenhuma instância da hierarquia a peregrina ideia de pedir responsabilidades aos… responsáveis. Mesmo as inspecções ou os tribunais, nas raras vezes em que são chamados a pronunciar-se, desconhecem o conceito de responsabilização, a não ser que ele se possa aplicar a um qualquer lacaio sem perigo para a nobreza.
Portugal não chegou aqui vindo do nada.

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