terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pensar pela própria cabeça

Muitos anos atrás, à entrada de uma discoteca, um de nós invocou uma qualquer passagem do Guerra e Paz para sustentar uma opinião ou ilustrar uma ideia. Um tipo que hoje é juiz censurou-lhe a bengala: «Deixa lá o Tolstoi em paz. Não consegues pensar pela tua cabeça?»
Não tenho a certeza de que a observação do futuro magistrado tenha sido uma legítima defesa da independência de espírito. Talvez ele apenas quisesse proibir as referências literárias com receio de não ter nenhuma para aduzir (não era garantido que as suas leituras fossem muito além do Código Penal). Mas por alguma razão este episódio sobreviveu na minha memória. Recordo-me dele com frequência. Nos dias que correm, mais do que nunca.

O debate político é hoje dominado por gente que não frequentava aquela discoteca (embora seja da geração que o fazia) e portanto não ouviu o sábio conselho. O que é pena. Impressiona a quantidade de tipos, sobretudo de direita (a esquerda é mais instintiva, menos escolar), que tem uma bibliografia no lugar do cérebro, um cânone de pensamento político que consulta como a Bíblia e a que obedece como ao Corão. A Ciência Política é, para estes espécimes, como um manual de etiqueta ou um guia para uma vida saudável. Habituados a mergulhar nos calhamaços e a tentar decorar as ideias dos outros, esqueceram-se de construir as suas, e agora, perante qualquer dilema no quotidiano, não pensam no que fazer, mas no que fariam as suas fontes bibliográficas.
A ideia romântica de que a direita e a esquerda tinham acabado, de que a dicotomia não fazia sentido, não havia explicações ou soluções só de um lado, durou pouco tempo. As novas gerações políticas activas são acerrimamente de esquerda ou de direita. Muniram-se para a vida como alguém que vai às compras e traz todos os produtos da mesma gama, compra todas as peças da colecção, o pacote completo.
Este comportamento é meticuloso em certos exemplares de direita. Refira-se um assunto, apresente-se um problema e eles logo se perguntam interiormente o que diz o cânone sobre aquilo. Só depois comentam ou agem, como um capítulo animado de uma das suas obras de referência. Fazem-no sem mencionar as fontes, é certo, mas percebe-se que a ironia, o cinismo ou a fleuma são em segunda mão, já vistos, prototípicos.
Finanças? Indústria? Agricultura? Artes? Já alguém pensou por eles, e escreveu artigos ou livros sobre o tema. Sexo? Os seus autores também fornicavam, sai um volume de capa dura.

Por vezes fico com a ideia de que a direita actual não tem militantes entre as novas gerações, mas segundas e terceiras edições encadernadas a tecido riscado e todas contentes por não estarem na prateleira.

1 comentário:

margarida disse...

Gosto disto, mas 'incomoda-me' de caraças...
Nem tenho outra forma de traduzir a coisa.