quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Expectativas

Faz mais de 10 meses que, por razões financeiras, deixei o luxo de comprar a Ler. Hoje não resisti, tive uma recaída, interrompi o processo de recuperação da frugalidade. Confio que os avalistas da minha transformação num homem parcimonioso aceitem que a tentação era demasiado grande, mesmo para um cristão-novo como eu: entrevistas a Philip Roth e Vítor Silva Tavares, Rogério Casanova sobre David Foster Wallace…
Infelizmente a aquisição da revista implicou a queda noutro vício em remição: leitura em espaço público com copo de vinho à frente. Não são os malefícios mais previsíveis da exposição e do álcool que temo, mas a frustração que posteriormente me toma. Enquanto leio a revista em ambiente de fumo e copos, encho-me de um espírito de tertúlia, mesmo que à mesa não haja mais ninguém. Registo mentalmente tantos comentários e considerações sobre os textos que leio, acometem-me tantas ideias que temo precisar de fundar hoje mesmo uma outra revista só para recolher toda a prosa que me ocorre. Talvez comece mais um romance ou livro de contos. Um longo post cúmplice sobre o «what if?» que Roth diz ter levado à escrita de todos os seus livros. Quem sabe um pequeno ensaio caricatural sobre o Casanova.
Mas nesta idade já não há embriaguez que dure. Caminho os duzentos metros até casa, ligo o computador, calço as pantufas e aqueço o chá e… fico cinco horas acordado para escrever aquela coisita sobre os albaneses que nenhum de vocês queria ler.

Já fiz quarenta há quatro, mas apetece citar o Pedro Mexia na sua crónica de sábado, comemorativa da entrada no clube da ternura: «Aos 40 anos, vivo com “expectativas diminuídas”, diminutas, em diminuição.»
Felizmente, ao contrário dele, as minhas expectativas tendem a voltar quotidianamente, mesmo que para esbarrarem uma e outra vez na dura realidade.

2 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Percebo agora melhor estes seus textos. É a nítida ternura dos quarenta.

Quanto aos albaneses, de facto, eu antes de a ter lido não a queria ler mas, depois, gostei de ter lido. E concordo com o que diz.

Mas vivemos tempos de albanização (e agora estou a referir-me ao âmbito económico) e, em Portugal, Vítor Gaspar e Passos Coelho serão os expoentes máximos dessa linha. Fernando Ulrich, com o seu 'ai aguenta, aguenta' está por trás a dar consistência ao discurso, sempre confuso e catatónico, de Passos Coelho.

Um bom dia e boas leituras!

margarida disse...

Padecemos do mal da esperança, esse vulcãozinho manso que nos aquece em segredo quando ao redor se agigantam os icebergues.
Franzimos o sobrolho às caneladas da vida (e dos outros), mas acalentamos sempre essa luz que não permite que esmoreçamos.
Assim se recomeça, a cada instante, depois de terminarmos tudo com fragor.

E viva o luxo de ler e o gosto de um bom vinho, que transforma qualquer ser só num ente menos sozinho.

(...e o texto da Sophia sobre o Porto, hein? tão lindo! tão verdadeiro! tão...assim mesmo.)