quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Do râguebi à Casa dos Segredos

Fruto de um desses equívocos que, repetidos displicentemente, se transformam em mitos, imaginava o râguebi como um desporto de cavalheiros, um reduto onde a força bruta andava a par das boas maneiras. O râguebi ilustrava mais do que outro desporto ou ofício a hipótese de a sensibilidade e a robustez coincidirem num mesmo corpo macho. No campo era preciso aguentar placagens violentas, mas também observar de bom ânimo as regras. Havia a dureza do embate físico e a compreensão do regulamento. Era uma luta primitiva conduzida com as rédeas do sangue-frio. Os jogadores de râguebi, habituei-me a pensar, eram super-homens, mais pelo autocontrolo emocional do que pelo poder muscular.

Ilusão minha. Hoje, na mesa ao lado, trataram de fazer ruir o mito. Falavam de uma equipa universitária de râguebi, mas podiam estar a falar de uma quadrilha de rufias. Os jogadores ali mencionados eram tipos que, se não estivessem bêbados, estavam a andar à porrada. Geralmente acumulavam. Se saíam em viagem, faziam questão de aterrorizar os empregados de estações de serviço e partir algum mobiliário, como as mais aplicadas claques de futebol. Não concebiam estar em público sem demonstrar de alguma forma violenta o seu poder, como machos alfa de um grupo de símios. De alguns dos espécimes descritos pareceu-me difícil assegurar se tinham sido recrutados numa universidade ou num asilo de doidos furiosos. Não ouvia suficientemente bem a conversa para ter a certeza.

De tudo isto os comensais, três machos e uma fêmea, riam, divertidos, sem espanto, conhecedores e apreciadores da fauna. Ninguém naquela mesa deve ter crescido na mesma ingenuidade que eu.
Havia, contudo, alguma inexactidão nos relatos, porque quando um deles mencionava certos jogadores célebres havia quem dissesse que a esse a idade tirara o ímpeto, enquanto outros diziam que, pelo contrário, estava mais combativo do que nunca. E retorquiam que o façanhoso antes referido pela outra parte é que estava já numa pré-reforma de chá e rotary club.

Talvez porque tivesse havido algum exagero nas façanhas descritas e percebessem que com os celerados do râguebi o sangue na mesa diminuiria (a não ser que eles próprios o fizessem derramar insistindo nas divergências), os comensais passaram logo que puderam para o estudante universitário comum, esse vândalo sem prática desportiva obrigatória cuja selvageria era mais consensualmente reconhecida e admirada.
Ouvi-lhes que, a propósito da prática frequente de atirar copos de vinho tinto à alvura do tecto, houve um restaurante cansado de manchas rubras que passou a servir apenas vinho branco em jantares universitários. E isso levantou na mesa a difícil questão de saber se a culpa da excitação púbere é da permissividade dos estalajadeiros se da zurrapa que dão a beber aos discentes. Outro assunto em debate era se os proprietários de restaurantes teriam meios de, por si sós, impedir os grupos universitários de sair sem pagar quando isso lhes apetecia ou se teriam sempre de recorrer à polícia. Apresentavam exemplos, referiam casos de sucesso, de jantares por cobrar.

Não era preciso olhar-lhes os rostos para perceber que os meus co-comensais não tinham abandonado a universidade assim há tantos anos: havia naquela mesa semi-domesticada certas saudades da selva.

Mas os feitos académicos já não me interessavam. Deixei de ligar à conversa, matutando na possibilidade de a equipa de râguebi daquela mesa não ser representativa do râguebi em geral — não desistimos facilmente das nossas ilusões, da nossa candidez.

Voltei a reparar neles quando ouvi que de novo litigavam em matérias candentes. Sexo em público? Todos tinham testemunhado, claro. No Brasil, dizia um. Naquela ilha espanhola (como se chama?, Palma de Maiorca), gabava-se outro. Na Madeira, subiu a parada a moça, dentro de água. Isso era vulgar, desvalorizou um terceiro, admiração seria na areia. Está bem, insistiu ela, mas viam-se mesmo os movimentos.
Isto, percebi depois, vinha a propósito da Gabriela e da importância de perceber se na telenovela original «elas» andavam assim tão descascadas e, presumo, se se viam mesmo os movimentos. A mãe de um assegurava que sim; a mãe de outro que não. A do terceiro dizia que era possível, porque lá no Brasil as coisas sempre tinham sido assim mais…

Como na Casa do Segredos, aliás. Tinham visto aquela parola? Não, a outra, a que se gabava de ser formada e dar aulas e mais não sei o quê e num concurso tinha falhado ao apontar no mapa Vila Real. Quer dizer, como pode alguém não saber onde fica Vila Real, admirou-se o geógrafo que um dia tinha visto sexo na ilha de «Palma de» Maiorca.

Os parolos sempre acham que a suprema ignorância é alguém não saber onde fica a nossa terra. 

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