terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ontem

1. Tecnologia Gutenberg
Às cinco e meia da tarde, na piscina, julguei por momentos que o meu cérebro fora sequestrado pela silly season. Tinha pago mais de cinco euros para ficar sentado numa cadeira de lona a sofrer as sevícias de uma selecção musical idiota, com o volume regulado para surdos profundos. Depois, ufa!, lembrei-me que podia abrir o livro ou ir nadar. Experimentei nadar e deu resultado: debaixo de água quase não se ouve a música. No entanto, esta solução revelou-se ineficaz a longo prazo — há limites para o tempo que aguentamos sem respirar (se não estivermos assim tão desesperados com a música). Agradeci sem sinceridade ao nadador-salvador por me ter trazido à tona (eu estava assim tão desesperado) e, de volta à cadeira, abri o livro. Iniciou-se de imediato o processo de teletransporte dali para fora. Devia ter optado desde logo pela tecnologia Gutenberg.

2. Efectivamente, escuto as conversas
Na esplanada do restaurante ouvia-se à noite música de altifalantes. O largo da terra era ali ao lado e este era o fim-de-semana da festa. (O meu cérebro tinha sido sequestrado pela silly season, caso contrário o que fazia ali eu?) De qualquer modo, o conjunto ainda não tinha começado a tocar, pelo que as lesões nos tímpanos eram para já reversíveis. Se eu saísse antes das 23h00 as coisas não iam de certeza piorar.
Mas pioraram. Pode haver coisas piores do que altifalantes roufenhos a debitar hits pimba. Como por exemplo sentar-se na mesa ao lado da nossa um par de machos lusitanos ébrios de 4x4 e de uma meia dúzia de cervejas bebidas no fim de uma tarde a rolar no monte.
Ao lado da sua irrequietude envolta em t-shirts com logótipo e do seu vozear de gorila na tundra (talvez a imagem certa seja chimpanzés com voz de hienas), as músicas do grupo Chave D’Ouro que se ouviam antes pareciam suites de Bach para violoncelo.
Não havia uma piscina por perto para onde me pudesse atirar (com a base de cimento do guarda-sol amarrada ao pescoço) e em vez de um livro tinha trazido o Expresso. (Céus, o Expresso!) Estava portanto dependente da velocidade da cozinha e da velocidade das minhas mandíbulas. O chef não colaborou (as mandíbulas sim, quando finalmente lhes foi dada a oportunidade), pelo que tive de suportar a minha meia hora de calvário ouvindo as conversas da mesa ao lado. Nada a que não esteja habituado. Quer porque apenas posso frequentar restaurantes populares (troika obligé), onde as conversas são geralmente mantidas aos berros de licitadores num leilão de porcos, quer porque tenho o vício estúpido de recolher matéria para livros que ninguém quer editar, provavelmente ninguém quer ler, e eu decerto não sei escrever.

3 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Ninguém quer editar, ninguém quer ler e você também não sabe escrever: só desgraças.

Mas, enfim, no meio disso tudo, pelo menos vai tentando pelo que nós, aqui deste lado, vamos aproveitando e agradecendo o seu esforço.

Rui Ângelo Araújo disse...

O agradecido sou eu.

Anónimo disse...

há muito que um livro não me consegue teletransportar tão acima de tantos decibéis... e o que eu tenho tentado! ;)