quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Diário de férias (9)

A poucos quilómetros do meu alpendre, a nordeste, existe um morro com vistas esplendorosas para os campos brancos e uma bonita capelinha no cimo. É a Senhora de Aracelis (ou Ara-Celes, Ara-Cellis, Ara-Celis, consoante o sítio onde lemos o nome).
À primeira vista, parece uma santa pouco canónica, com tal designação. Na verdade, é um nome de cristalina transparência. Ara Coeli é o latim para Altar do Céu, e poucas coisas estão aqui, na planície, mais próximas do Éter do que o morro. Mas, se tivermos em conta que aquele é um local tradicionalmente venerado pelos agricultores dos concelhos em redor, talvez possamos pensar num altar menos genérico, suspeitar de um dedicado particularmente a Ceres, a deusa romana da agricultora, da fertilidade, dos cereais (aliás baptizados a partir dela). Provavelmente vem de longe a prática do Alentejo como celeiro. De um tempo em que os deuses eram pagãos e a Igreja Católica ainda não os tinha recriado no seu panteão de santos — um exercício de resto com semelhanças ao que os romanos tinham feito com os deuses gregos. (E egípcios: Ceres, aliás Deméter, aliás Isis…)
Como aprendi com um amigo, a conversão ao Deus único não foi um exercício pacífico, implicou concessões por parte da Igreja. As populações resistiam a abandonar os seus deuses ancestrais (certamente pelos excelentes serviços que estes haviam prestado) e a única maneira de as estatísticas serem favoráveis aos recenseadores católicos era deixar que o povo continuasse os seus cultos no seio da Santa Madre Igreja. A intenção dos estrategas católicos com a falácia dos santos era a mesma que o Governo de Passos Coelho tinha quando despromoveu o Ministério da Cultura: «Vamos só mudar o nome», diziam, «a função mantém-se». Mas o sofisma não correu tão bem à Igreja como está a correr ao Governo: os cultos sobreviveram.

É agradável pensar nesta palavra, Aracelis. Enquanto noutros altares os deuses pagãos viram o seu nome substituído ou corrompido até soar cristão, aqui, talvez prenunciando a resistência alentejana à Igreja, a designação do local de culto manteve-se teimosamente próxima das origens. Pena é que a Ceres se tenha entretanto tornado tão pouco útil para as searas alentejanas quanto a Senhora da Graça ou o senhor S. Pedro das Cabeças, moradores em morros vizinhos.

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A ida à Senhora de Aracelis envolve um ritual. Depois da via principal, na maior parte do percurso de nove quilómetros a estrada é tão estreita que só passa um automóvel de cada vez (o que aliás é comum no acesso a várias aldeias). Perspicazes, os construtores da via planearam baías a intervalos regulares, ora de um lado, ora do outro, de modo a que um dos condutores possa encostar para que se cruzem dois veículos. Sempre que isso acontece, aquele que viu a passagem franqueada, se for educado, levanta a mão e agradece. Acredito que esta inspiração foi um último contributo da deusa moribunda para a harmonia entre vizinhos. Pelo menos a mim fez-me sentir sociável, ali, dentro do Chevrolet a acenar.

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