sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Diário de férias (10)


Há vinte anos fiz a minha primeira aproximação ao Algarve. Não em férias. Era militar à força em Elvas e a 25 de Julho o nosso regimento mandou algumas companhias para um campo de batalha a sul, nas proximidades de Castro Verde. Não em combate, felizmente os mouros tinham-se retirado alguns séculos antes, decerto por cautelosa antecipação à ferocidade indolente da primeira incorporação de 1990. Íamos celebrar a Batalha de Ourique, de 1139, peleja que D. Afonso Henriques terá ali travado contra os Mouros. Parece que a venceu, ou pelo menos logrou sobreviver-lhe para ser aclamado rei, o que do ponto de vista dele pôde sem dúvida ser considerado uma vitória.
A cerimónia decorria sob um tórrido sol baixo-alentejano no outeiro a que chamaram de S. Pedro das Cabeças (numa referência macabra ao piquenique patriota de Henriques no século XII) e houve uma sucessão de militares — praças, sargentos e oficias — a desabarem democrática, silenciosa e geometricamente. Em dominó. Não ainda pelas hostilidades — mas por insolação ou fraqueza (na tropa por vezes saltava-se o pequeno-almoço, na ânsia mal contida de chegar a horas à bem-amada parada matinal).
Depois das cornetadas e vozes de comando da praxe, depois de algumas piruetas coreográficas que o exército aprecia, imediatamente antes das dissertações generalícias, começou então a contenda. Se se tratasse de uma recriação da famosa batalha, não teriam havido o mesmo empenho e verosimilhança. Se apenas tivesse havido discursos patrióticos e evocações poéticas, odes triunfais — opção habitual do Estado-Maior —, não só não teria havido empenho nenhum como teriam certamente caído muitos mais militares no teatro de operações — mortos de tédio. O que salvou o dia foi a incursão de um enxame de abelhas, uma célula terrorista criada em colmeias na encosta do morro e naquele dia activada por descendentes de mouros — que os há por ali, movendo-se na sombra de chaparros e oliveiras. Era, estou seguro, uma operação integrada num mais amplo e maquiavélico plano de vingança islâmica, com ligações precoces e perfumadas, melífluas, à Al Qaeda.
Felizmente o espírito lusitano e o exemplo afonsino dominavam a manhã e, antes de ter de abandonar as fileiras, a tropa, ignorando o alinhamento da parada duramente conseguido, ignorando a bonita sequência de atenção-firme-sentido-ombro-arma que tanto excita algumas esposas de oficias, a tropa, dizia, sacou de boinas e quicos — e ofereceu uma resistência abespinhada. As ordens eram de firmeza e rigor geométrico, aprumo, mas ninguém pode censurar a soldadesca por preferir um combate menos coreografado, menos napoleónico e estúpido na sua harmonia de movimentos. Quer dizer, falamos de abelhas: não se combatem abelhas com brio militar. Ou sincronia de gestos (isso é natação olímpica). As abelhas combatem-se esbracejando e praguejando, brandindo bonés e barretes como espadas, golpeando o ar como se de cabeças de maometanos se tratasse, sacando das calças as fraldas da camisa em resposta a infiltrações (não queremos uma quinta coluna nas nossas costas)… As baionetas seriam usadas mais tarde, com um dente de alho, sobre os golpes agudos e derradeiros do inimigo suicida — se a lâmina estivesse suficientemente fria para a mezinha tradicional.

Há vinte anos, dizia eu, visitei pela primeira vez os outrora designados Campos de Ourique, onde hoje se situa o meu acampamento de Verão — a um escasso e na altura insuspeitado quilómetro do outeiro de S. Pedro das Cabeças, cuja ermida, mandada erigir pelo eclipsado D. Sebastião, comunica visualmente com a simpática Senhora de Aracelis e mais umas cinco irmãs, reza a lenda.
Há vinte anos não cheguei ao Algarve, com pesar adolescente (as praias que tentava ver com os meu contristados olhos milicianos do cimo de S. Pedro das Cabeças mantiveram-se à distância por mais algum tempo). Hoje constato que estou um feliz quilómetro mais longe do Algarve do que naquele desolado dia 25 de Julho dos inícios de 90 — e dá-me um prazer perverso informar disso o rapazola convencional que fui.

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