segunda-feira, 11 de junho de 2012

A propósito de bola (ou talvez não)

Tinha ficado bloqueado naquela canção como um disco riscado e ela gostava de o levar a passear pela rua enquanto ele a cantava baixinho e lhe apertava a mão. Will you still need me, will you still feed me. Tinham mais de sessenta e quatro (a esperança de vida aumentara desde os Beatles), mas, sim, ela continuava a precisar dele e a alimentá-lo, agora de uma forma literal, a colherinhas de sopa.
Havia um recolher obrigatório — os tempos hoje em dia eram deste jaez — mas ela estava cansada de estar em casa, queria sentir a brisa do fim da tarde, passear de mão dada pela marginal. De modo que mandou às malvas os avisos e fez o que lhe apetecia fazer.
As claques não tardariam a encher as ruas, evidentemente. Era dia de derby, e as autoridades faziam questão de reservar o espaço público para os hunos em dias destes. Faziam-no em nome da segurança e do bem-estar social. E, de facto, ela tinha de concordar que de um certo ponto de vista era mais razoável para o cidadão comum (caso ainda existisse) ficar em casa, sequestrado pelo seu próprio governo.
Mas não naquele dia. Tinham passado cinquenta anos desde o casamento precipitado no final dos anos sessenta, quando ele confundiu o desejo dela com paixão e ela, que pensara iniciar então uma vida de amor livre e flores no cabelo, se embeveceu com a ingenuidade do futuro marido e acedeu a dizer sim, mesmo que na altura não achasse que aquilo a comprometia de forma alguma. Cinquenta anos em que nem por um dia a banda sonora oficial daquela união improvável (will you still need me, will you still feed me) deixou de se ouvir. Cinquenta anos era mais do que tinham o primeiro-ministro, o ministro das finanças e o ministro-adjunto, a tríade que o país escolhera, talvez num desfile de manequins (o que era feito dos anciãos, por Deus?).
Talvez já não houvesse muitos velhos para além de eles os dois. Aqueles que se lembrava de ter visto contavam-se pelos dedos das mãos. Mas na verdade não reparava muito no que havia à sua volta. Quando saía só lhe interessava ir sentar-se num banco a ver a foz e a acariciar a mão do marido, que o Alzheimer felizmente cingira à faixa certa do álbum, mesmo que ela não apreciasse particularmente o arranjo meio pateta que o McCartney providenciara para a musiquinha.
Ao chegar ao fim da avenida o tempo começou a mudar e ela arrependeu-se de não ter trazido os abrigos que tinha sempre pendurados no vestíbulo — mas não se arrependeu de ter saído. Talvez chovesse (havia relâmpagos a cruzar o céu), mas o que era mais romântico do que um passeio à chuva? Haveriam de sobreviver à constipação, se ela os acometesse, e a maré viva era um espectáculo que ambos apreciavam.
Sim, estava verdadeiramente excitada com a decisão de ter saído apesar de tudo e todos pretenderem o contrário. Ainda havia alguém no país que fazia o que lhe apetecia e não o que era determinado. E Deus, no caso de existir tal singularidade lá em cima, bem poderia convocar as tempestades que quisesse. Se ela achava que lhe calhava bem um passeio até à foz, vinha até à foz. Feliz por ter o marido de sempre a cantarolar-lhe na sua vozinha querida a melhor declaração de amor.
Depois de se terem sentado a ver a espuma das ondas, a primeira claque passou nas costas deles, bastante desmotivada, quebrando apenas uma ou outra vitrina e incendiando escassos contentores de lixo. Meia hora mais tarde, escoltada pela polícia, veio a insolente claque adversária, com disciplina militar e sarcasmo palaciano, entoando um conhecido cântico guerreiro.
João, o marido, voltou-se para trás, com um sorriso e um dedo hesitante de maestro no ar. Demorou algum tempo a apanhar a melodia, mas depois atacou-a a plenos pulmões — e ela soube pela primeira vez em cinquenta anos o que era a traição.

2 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Gostei imenso de ler.

Faz um pleno (se é que é assim que se diz) abordando temas da actualidade política, social (não só por isso mas tantos são os casos de Alzheimer e tão diversas as formas de lidar com a doença), amor, acomodação, resistência psíquica, humor, fidelidade, traição.

Não refiro o futebol porque me parece ser mero pano de fundo para abordar a violência entre claques e, sendo isso, entendo que está abrangido nas referências sociais.

Apetece-me dizer que está, também, muito bem escrito mas isso é capaz de ser redundante.

Rui Ângelo Araújo disse...

Obrigado.