quinta-feira, 1 de março de 2012

Serviço cívico obrigatório

Imagine que é proprietário de um edifício no Porto e que um street artist dotado lhe decora aquela fachada que você ia ter de mandar pintar mais dia, menos dia. O seu entusiasmo com a obra e o alívio financeiro doravante vão durar-lhe pouco. A Câmara tem uma proposta de higiene pública que, entre outras medidas, pretende mobilizar os proprietários para um movimento cívico sem precedentes. Quando digo mobilizar não estou a falar de apelos, incentivos, sensibilizações. A coisa tem as suas reminiscências militares, é um recrutamento compulsivo, é serviço cívico obrigatório. Se a sua fachada é grafitada, logo terá um fiscal à perna a exigir-lhe uma de duas coisas: que apresente uma queixa-crime contra o vândalo ou o artista (quando identificados) ou proceda de imediato à remoção do graffito. A terceira via é pagar uma multa de 400 a mil euros.
Com Rui Rio não se brinca, ou as pessoas exercem voluntariamente, digamos assim, os seus deveres cívicos ou pagam multa. Não é chantagem — é pedagogia. Não é coerção — é um convite irrecusável ao uso do livre-arbítrio. No sentido certo.
De resto, atendendo ao historial do Presidente da Câmara, é de supor que não adianta você desculpar-se com a qualidade da obra, mesmo que se trate de um Rembrandt de aerossol: arrisca-se a que o fiscal, emulando o chefe, saque logo da pistola à simples menção da palavra arte.

1 comentário:

Margarida disse...

LOL! O texto está supimpa, mas não adianta: odeio graffitis e acho o dr. Rio um déspota esclarecido.
E eu tenho esse ligeiro defeito de admirar tipos com mau feitio.
Ordem e sucesso!
;)