sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Depois do futuro, com o passado nos iludimos

Alguns procuram nas memórias da infância e da adolescência — quando elas têm mais de vinte e cinco anos — alívio ou uma forma de relativizar os problemas que aí vêm. Suponho que os afortunados de antes são os optimistas de agora. Também tenho a minha versão de infância feliz, pobrete mas alegrete. Escrevi episódios de uma epopeia dessas na anterior vida do Canhões. A espaços, conto-os de novo, quando reparto pão e vinho (mais pão do que vinho, que a generosidade tem limites) nas agora raras despreocupadas ceias de condiscípulos. Depois dos factos, somos (quase) sempre capazes de assobiar e ver o lado brilhante da vida. Se por vezes relatamos tragédias é apenas para aumentar o contraste dos momentos bons. Como quando saímos da tropa, fanfarrões, as agruras e a humilhação a servirem para dar o tom heróico aos quinze meses de aquartelamento. Nas nossas narrativas, o drama é, por inversão, o palhaço rico que apenas existe para fazer brilhar o palhaço pobre — que, naturalmente, é o mais feliz dos dois.

Acontece o mesmo com a evocação do mundo rural. A singeleza, os bons sentimentos, a solidariedade, o ar puro, a honestidade, a franqueza, os dias a decorrer ao ritmo natural, a confiança, o amanhecer e o pôr-do-sol, o sol a pino e a três quartos, e a chuva purificadora e a neve imaculada e o murmúrio do vento nas searas de trigo ou no veludo das parras em Agosto ou nas coloridas folhas outonais. Nunca a lama e as frieiras e o uivo sinistro e cortante da nortada nas frinchas das paredes e do tecto e os alguidares a apanharem as pingas e os cobertores da cama inteiriçados pela geada (e os percevejos e os ratos) e os pés enfiados em sacos de plástico para impermeabilizar as botas furadas e as camisolas sempre curtas ou rotas ou insuficientes, os casacos largos, feios, constrangedores, igualmente rotos ou sujos, ferrete da condição inferior; nunca a estreiteza de horizontes, a rédea curta da ambição, a renúncia do sonho, o atrofio da vocação. Ou tudo isto, sim, tudo isto quando precisamos de azul para o oiro da retórica.
O mundo rural, se invocado de memória, é o paraíso na terra — apenas um pouco condimentado, para lhe requintar o sabor. Não se percebe como as pessoas, aqui como ao redor do mundo, teimam em abandoná-lo. Mesmo os que assim idílico o recordam, ameaçando poeticamente um regresso às origens que, na verdade, não querem corporizar, a não ser no bom tempo ou num monte alentejano com piscina, num financiado turismo rural com piscina, no velho solar recuperado, melhorado — e dotado de piscina.

Usando um apelo muito em voga, o mundo rural e a maior parte das infâncias precisam de um Correio da Manhã para nos revelar que o passado, como a índole lusitana, é menos bondoso do que gostamos de crer. É apenas lindo na nossa memória facciosa e em admiráveis páginas de literatura. Nas melhores destas, a beleza que experimentamos é intrínseca à obra, não ao que ela ficciona. É por isso que quando queremos mesmo sentir o passado devemos talvez ler relatórios, estatísticas, correspondência e diários de cidadãos comuns, inventários, registos — e não sentarmo-nos melancolicamente a recordar ou a ler romances.

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