terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Naufrágio

Há algo de naufrágio declarado quando o governo e os blogues que o formataram e lhe abanam as folhas de palmeira nas faces se obstinam tanto em mandar bugiar emigrar os conterrâneos. O barco está a ir ao fundo, é notório, tanta água mete. E a culpa há-de ser em grande parte dos que estão dentro do barco, todos nós. Mas desconfio que o capitão não vai ser o último a abandoná-lo. Por enquanto, ainda é jovens e professores primeiro, mas mais para a frente há-de ser o salve-se quem puder — na esteira, aliás, de um passado exemplar.
Ainda um dia havemos de ser elucidados sobre como é que esta aposta na emigração de jovens e quadros se coaduna com aquela mágoa tão típica da direita com a infertilidade do país, o envelhecimento da população. Afinal, a juventude faz ou não falta para viabilizar economicamente a pátria?
Posso adiantar-me e esclarecer o paradoxo. A preocupação com a natalidade existia no tempo em que era preciso defender com estatísticas a falência iminente do Estado Social, agora que ele está em processo de desmantelamento já não são precisas muletas dessas.
Não tenho ilusões quanto ao que é possível o governo fazer nas condições actuais. E há uma boa dose de pragmatismo na exortação à debandada, claro que sim. Só que não precisamos de um Governo para nos dizer o que fazer quando a coisa fica preta, não é exactamente para isso que o elegemos. Seria insensato (é insensato) pedir-lhe que nos assegure o nível de vida anterior, como pedem as diferentes corporações no seu habitual egoísmo. Sempre foi insensato exigir ao Estado que garantisse emprego para todos nas profissões escolhidas, saídas automáticas da universidade para o mercado de trabalho. É estultícia conceber-se um Estado assim. Mas, por outro lado, o mínimo que pedimos a um governo é que lute pela diminuição do desemprego e estimule algo de patriotismo, ou melhor, de participação colectiva no bem comum. As pessoas sentir-se-ão mais confortáveis a pagar impostos e aumentarão mais facilmente a produtividade se o fizerem em nome de um país que se entristece com a saída dos nativos, não de um que os menospreza ou dispensa jactando-se de “frontalidade” e “pragmatismo”.
Não me repugna, porém, que o Governo exorte os conterrâneos a mudar de área profissional (como aliás também fez, diga-se em abono da verdade). Mas para que este apelo fosse mais do que mera hipocrisia, seria preciso que a economia estivesse a ser estimulada para criar emprego. Seria preciso que passássemos da fase do castigo moral (a “solução” exclusiva e beatífica da austeridade) à do vamos lá tentar resolver esta merda, nem que fosse com campanhas de repovoamento do interior, regresso ao sector primário. Está o Governo a fazer algo mais do que gerir a insolvência? Tem planos neste âmbito? Tenciona mostrar na União Europeia que assim não vamos lá e que eles também têm culpa no que nos aconteceu, que os juros que pagamos são inibidores? Não, claro que não. Por isso, quando o Governo indica a porta de saída aos seus cidadãos, não está a ser frontal — está a confessar a derrota, a anunciar que desistiu. Provavelmente antes mesmo de ter tentado.

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