quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Terras pequenas II

Os habitantes de certas terras pequenas gastam o seu tempo de vida a suspirar pela grande cidade. Por vezes sabem que jamais se mudarão para a grande cidade. Alguns até suspeitam que há algo de bom em morar numa terra pequena, falta só um clique para o bom ser perfeito. Mas, no seu complexo auto-sustentado de morador em terra pequena, acreditam que o clique em falta só está ao alcance dos moradores em cidade grande.

Então o cidadão entedia, ressente, projecta no exterior, no forasteiro, as suas frustrações. Não cuida do que a terra tem de bom. Não alimenta o seu amor pela terra (embora alimente o seu bairrismo). Deixa de acreditar na terra. Deixa de acreditar em si, ele que já acreditava tão pouco.

Este tipo de morador de terra pequena não imagina que a sua profissão pode ser um contributo para a qualidade de vida da terra. Trabalha por necessidade, o menos possível, aborrecido, de trombas. Fica à espera de um forasteiro que possa hostilizar. É nisto que ele se realiza; aqui encontra algum ânimo. Alguém que visita a terra ou que nela vem viver pela primeira vez tem de deixar às portas da povoação toda a veleidade, como às do Inferno se deixa a esperança.

São os regulamentos da terra, que o forasteiro desconhece, mas cuja aplicação, por mais desactualizados que estejam, por mais absurdos que sejam, se torna de repente essencial. O próprio morador não percebe a utilidade do regulamento, a sua finalidade, provavelmente não o leu nem o cumpre, mas sabe que existe, sempre foi assim e assim será. Quem está mal muda-se — mesmo que tenha acabado de se mudar.

As instituições e as repartições da terra, geridos com enfado e parados no tempo, são barreiras que se levantam contra o forasteiro. Não há cá disso, vão avisando mal dispostos os mangas-de-alpaca da terra sempre que o forasteiro pretende determinado documento ou serviço ou informação. Isso pode ser algo que a Constituição da República consagra, algo que a repartição em causa está obrigada a fazer, algo que é trivial noutras paragens. Mas não aqui. Aqui é uma terra pequena, desgraçada, não temos tempo nem meios para nos actualizarmos, talvez não tenhamos mesmo todas faculdades humanas quiçá mentais necessárias aos tempos modernos, coitados de nós. Se queria modernices, comodidades, ficasse lá pelo sítio de onde veio. Quem lhe pediu para vir? Que raio de ideia foi a sua? A terra está a desertificar não há gente para fazer as coisas. Como? Que estou cá eu para fazer este serviço que foi o que me pediu? O que quer dizer com isso?

Depois os funcionários das repartições e os gerentes das instituições ficam sentados lado a lado no alpendre ao pôr-do-sol a ver o forasteiro arrastar as malas pelo pó, a regressar pisando as suas próprias pegadas, ainda frescas. Lá vai o esquisito, dizem entre gargalhadas que se perdem no vazio da paisagem. Estes tipos de fora é só manias. A noite cai, as gentes recolhem-se, não tarda as ruas ficam desertas. Alguns moradores passam na tasca a confirmar como a terra está sem vida, sem ânimo, já não há parceiros para a bisca lambida, e vão para casa, afundam-se no sofá, em frente à televisão, a imaginar o que será viver na cidade.
De manhã o galo canta e o censo conta menos umas almas.

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