terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os homens — cenas da vida matrimonial

1. A linguagem
A maneira como um homem se refere aos trabalhos que faz em casa define a sua relação com o conceito de igualdade de géneros. Se disser que «ajuda» a companheira, mesmo que de facto ajude muito e tenha nisso sincero orgulho, chumbou o teste. A linguagem trai. O homem equânime não ajuda — faz a sua parte, o que é necessário, o que se impõe; age de moto próprio num sistema sem privilégios nem subordinações.

A emancipação das mulheres é imensamente mais difícil e demorada, mas, para um mundo mais justo, o homem também precisa de se emancipar. Desde logo de uma cultura que deixa no seu subconsciente falsas prerrogativas de superioridade. Que lhe formata o pensamento fazendo-o achar que o seu desempenho na cozinha ou com os filhos é ajuda — quando não favor ou piedade.

2. Happy end
Na mesa ao lado, alguns casais partilham entre si a sobremesa e, com o resto da sala, a vida íntima. A morena avisa, ainda com ar jovial, que está cheia do comportamento dos homens. Só têm tempo para os amigos, nunca para a casa ou a família. Se calha de virem cedo, é para se deixarem cair no sofá, anunciado exaustão ou dores de cabeça. Ajudar (a morena não é totalmente emancipada, embora neste momento pareça a um passo de o estar) nas lidas domésticas, não é com eles, que, marrados na TV, exibem a expressão de quem não tem força para erguer os membros. Nenhum dos cinco. (No subtexto do rol de queixas da morena parece incluir-se a não consumação do matrimónio.)
As duas louras e a ruiva concordam, com acenos e monossílabos enfáticos, fornecendo o apoio de que a morena sente falta. De vez em quando dão os seus próprios exemplos. Os homens, pelo seu lado, tentam brincar, obstar, boicotar. Inesperadamente, cruzam os braços, entregam-se à evidência, esperam que o tempo (e aquela conversa) passe.
A voz da morena sobe de tom, as faces coram-lhe, parece querer pôr-se de pé na cadeira. Em crescendo, manda calar o homem, adiciona pormenores cada vez mais elucidativos, dá ao seu aviso inicial ares de ultimato. O que começou como um cliché, considerações genéricas, conversa gasta de encontro de casais, transformou-se — por força da própria retórica, do apoio do lado feminino da mesa e talvez do vinho — numa espécie de pré-anúncio de divórcio unilateral.
O resto da sala, pendente, troca olhares. Prepara-se para ouvir a morena informar o marido de que a partir de hoje e até haver decisão judicial dorme no sofá. Mas ela faz uma pausa, bebe um golo de água e, com um sorriso apaziguador, diz para o marido: «Bem, hoje deixo-te pagar a conta.»
O resto da sala pousa os talheres — quer de volta o dinheiro dos bilhetes.

3. Dores de cabeça
No drama do fastio matrimonial, se não se sabia antes sabe-se agora, as dores de cabeça não são um argumento exclusivamente feminino.

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