quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Amas-de-leite

O artigo do multimilionário Warren Buffet publicado no New York Times (sob o título gritantemente elucidativo “Parem de mimar os super-ricos”) humaniza o autor — mas não redime a classe. Pelo contrário. Ao contrastar com o silêncio comprometido ou a oposição obscena dos restantes milionários, evidencia ao extremo o desinteresse egoísta destes pelo resto do mundo.

Em sociedades decentes, bastaria a transparência cristalina daquele pequeno texto para que governos caíssem rubros de vergonha. Ninguém tinha dúvidas que andavam a mimar os ricos, mas quando são os próprios a dizê-lo… bem, resta muito pouco que fazer.

Ou talvez não. Não subestimemos a sabujice ou a petrificação ideológica. Nos EUA os republicanos boicotam ufanamente medidas de justiça financeira. Em Portugal aumenta-se para o máximo o IVA da electricidade e mantém-se no escalão mais baixo o do golfe.

O simpático tratamento fiscal dado aos mais ricos e às grandes corporações e empresas não é uma opção estratégica para favorecimento da economia global, como querem fazer crer (ou chegam a crer, com fé farisaica) os ideólogos do sistema. É a medida do desprezo que ideólogos e governantes sentem pelo cidadão comum. É a medida da impotência da classe média. É, sobretudo, a caricatura da democracia: o povo escolhe pelo voto as amas-secas dos ricos. Ou antes: as amas-de-leite — na verdade, os governos dão de mamar aos ricos.

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