segunda-feira, 11 de julho de 2011

Notas para que a namorada não mais me acuse de ser direitista.

1. A conjuntivite da direita
De repente, a Moody’s (para já ela) está errada, é mal intencionada, tem uma agenda, a bandida. Sócrates, percebemos agora, não era só um mau primeiro-ministro — era um argueiro no olho da direita portuguesa. Ou isso ou Passos Coelho é um colírio. Aquilo que nós, simples cidadãos ignorantes de economia, tínhamos intuído há meses, descobriu-o agora com horror a cândida direita lusa. Foi o país a eleições para quê? Para aliviar a conjuntivite da direita? Mas isso não devia ser função de um sistema de saúde privado? Como justificar perante a troika tamanho mau uso dos recursos nacionais?

2. O casus belli
Alguma da direita portuguesa que bloga ou opina nos jornais não é mal intencionada — é cândida. Ou estúpida. (A restante é estúpida e mal intencionada). A invasão do Iraque foi a primeira prova. Que candidez. Que deslumbramento. Que emoção. Desde os soldadinhos de chumbo nos egrégios mosaicos do solar-lá-nas-berças-onde-se-vai-uma-vez-por-Verão que não havia adrenalina assim. Depois, quando o embuste deu à costa, o espectáculo foi comovente. Houve confissões de candura que eram, por si só, epitáfios de um cérebro que se preza, a carta de despedimento que antecede um harakiri. (E contudo, como diria Galileu, esta direita continuou a mover-se.) Houve, em alguns casos, contorções que não envergonhariam as antigas ginastas… soviéticas. E, naturalmente, houve cinismo: precisamos do petróleo, não é? O dirty job que alguém tem de fazer — a direita mais que todos.

3. Mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma
Agora a mesma direita achou que o que fazia falta a Portugal era mudar de políticas, mudar de paradigma. Daí termos um governo mais troikista do que a troika — um herói trágico, peripatético, um Zezé Camarinha de estola a quem afinal as agências dizem I’m not in the mood.
Não ocorre a estas irrequietas sinapses de direita que o que faz falta a Portugal é mudar de práticas. A incompetência, o despesismo, o compadrio, a corrupção, o arrivismo são os grandes males da economia portuguesa, não a social-democracia que querem enterrar. Talvez Passos Coelho, depois de ter passado pela reunião dos autarcas portugueses (esmagadoramente PS e PSD, como se sabe), possa ter recordado algumas verdades sobre este assunto que nas últimas décadas tem unido laboriosamente tantos socialistas e pepedês.

4. Liquidação total
Esta direita em Portugal não deveria ser governo — devia ser liquidada num mercado de (penas) capitais.

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